Observações sobre o Brasil e as regiões austrais feitas a partir das regiões boreais


No artigo no caderno Mais, da Folha não falei de um assunto importante, que não estava em pauta, mas é ligado à China . Na entrevista que deu ontem para a Folha, Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, que mora e trabalha na China há 8 anos, ilustrava a falta de interesse com a China, primeira parceira comercial do Brasil: “quando eu visito a embaixada chinesa em Brasília ou o consulado chinês em São Paulo ou no Rio, sou recebido por vários diplomatas chineses que falam português. Não temos ninguém no Itamaraty, ou no governo brasileiro, que fale chinês. Você chega à embaixada brasileira em Pequim e é recebido por secretárias que falam espanhol ou inglês. Não tem cabimento”.
A reflexão poderia ser estendida às universidades brasileiras. Os especialistas brasileiros sobre a China ainda são pouco numerosos. Portugal e os missionários portugueses foram os primeiros europeus a estudar a China a partir da feitoria de Macau, estabelecida desde 1557. O Colégio São Paulo de Macau, dos jesuítas portugueses, formou os primeiros sinólogos do mundo. Macau permaneceu sob soberania portuguesa até 1999. Há, portanto, ampla documentação sobre a China em língua portuguesa, estudada desde sempre pelos especialistas europeus, americanos e asiáticos. Não conheço historiador ou cientista social brasileiro que fale e leia madarim e trabalhe nos arquivos de Macau. Pelo que sei, no departamento de História da USP, a maior universidade do país, a situação até piorou. Nos anos 1980, havia o professor Ricardo Mário Gonçalves que sabia mandarim e dava aulas sobre civilizações do Extremo Oriente. Agora, há muito mais estudantes interessados na China, mas não existe nenhum especialista na área no departemento. Ora, no caso da China, como no caso da África, o papel da história tem um caráter fundador: é essencial para dar a dimensão do tema e abrir caminhos para outros setores das ciências sociais e da biociência.Quando o saudoso Antônio Alçada Baptista dirigia, nos anos 1980-1990 a Fundação Oriente (na época, cheia de dinheiro doado pelos cassinos de Macau) procurou, em vão, projetos de pesquisa brasileiros sobre a China que pudessem serem financiados pela Fundação.
Nunca aconteceu isso antes : na época em que a Inglaterra era a primeira parceira comercial do Brasil, no século XIX, os dirigentes brasileiros sabiam das coisas inglesas, iam a Londres e liam inglês. Idem para os Estados Unidos, primeiro parceiro comercial do Brasil no século XX. Quando se sabe que a formação de especialistas em um novo campo de pesquisas demora uma geração, fica-se perplexo. Taí a África que não me deixa mentir.
No começo dos anos 1960, o Itamaraty viu logo que Portugal ia ser posto para a rua de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé. Na mesma altura, José Honório Rodrigues escreveu um livro pioneiro, Brasil e África,outro horizonte (1961), que abria muitas pistas de pesquisa. Paralelamente, a documentação portuguesa sobre a África era enviada gratuitamente para as grandes universidades brasileiras e muito bem organizada e catalogada no Gabinete Português de Leitura, no Rio. Mas só agora – 40 anos depois, seu doutor ! – no começo do século XXI, começaram a aparecer as primeiras teses brasileiras consistentes sobre a África lusófona. No meio tempo, a produção anglo-saxônica (inglesa, americana, canadense e australiana) tomou distância, formando inclusive importantes especialistas brasileiros de Angola, como Roquinaldo Ferreira e Mariana Cândido, que foram logo recrutados por grandes universidades americanas. (O carioca Roquinaldo, o maior conhecedor do arquivo de Luanda - na opinião do arquivista de là -, e autor de uma tese inovadora sobre Angola feita na Universidade da California, fez concurso para um posto de história África Central na Unicamp e não passou...passons. Teve, na hora, ofertas de universidades americanas e, em especial de Joseph C. Miller, o mais importante especialista mundial da história de Angola, da University of Virginia, onde agora Roquinaldo é um professor muito respeitado).
Outro coisa, falei no artigo sobre o livro (Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso) do imã Abdurrahmã Al-Baghdádi que ficou entre 1865 e 1868 no Brasil, esteve no Rio, Bahia e Pernambuco, onde conheceu africanos muçulmanos brasileiros. Há um link do livro traduzido para o inglês por Yacine Daddi Addoun e Renée Soulodre-La France. Conheci Yacine quando estive no Harriet Tubman Center de estudos afroamericanos da Universidade de York (Toronto), é um cara sério, boa praça, que trabalha sobre o fim da escravidão na Argélia e se interessa pelos trabalhos dos historiadores brasileiros que fazem pesquisa sobre Angola.


Há 25 anos assistí em Paris, com uns amigos este programa da candidatura de René Dumont à presidência da França. No final, nossa tchurma vaiou o véio : a gente sabia tudo, a gente era mocinho, a gente era mitterrandista, a gente era pra-frentista ou anarquista, e ainda por cima bonitinhos: o papo dele era furado ! Mas o papo bateu na minha cachola: o véio tinha razão antes de todo o mundo: vai faltar água!! Alguns amigos que estavam lá comigo viraram logo depois ecologistas -, uma forma light mas consistente de anticapitalismo. Agora leio esta notícia no Estadão sobre o problema mundial da falta d'água e lembro de novo que o véio tinha razão. Salve René Dumont !!
Concluí o texto abaixo para a Folha quinta à noite. Hoje, diante da profusão de artigos e comentários de blogs sobre o encontro Lula-Obama e a conferência de imprensa dos dois na Casa Branca, vale a pena anexar alguns pontos.
Quando dois chefes de Estado conversam há uma parte do papo que é reservada, com os intérpretes mas sem assessores (houve meia hora de conversa assim). Em seguida, as delegações combinam o que vão dizer para a imprensa. O assunto da normalização das relações com Cuba, que Celso Amorim na entrevista no Estadão julgava “inevitável” na pauta da Casa Branca, não foi comentado na coletiva. Mas não quer dizer que não tenha sido discutido. No encontro havia James Steinberg, subsecretário de Estado, o general James Jones, do Conselho de Segurança Nacional (NSC), Thomas Donilon, vice no NSC, Dan Restrepo, assessor para o Hemisfério Ocidental do NSC e Larry Summers. Ou seja, o vice de Hillary (Steinberg), o principal assessor econômico (Summers) e três membros do NSC, gente paga para seguir perto países complicados como Cuba, Venezuela e Bolívia. De todo modo, Cuba é um tema sensível na política externa e interna americana: ninguém imaginava que Obama fosse evocar o assunto numa entrevista coletiva com um chefe de Estado estrangeiro.
Outro ponto: antes de chegar à Casa Branca, Lula se reuniu com um velho amigo, John Sweeney, sindicalista que preside o AFL-CIO, a mais poderosa organização sindical americana, com 10 milhões de afiliados, cujo apoio é fundamental para o Partido Democrata e para Obama, sobretudo numa crise dessas (só topei com esta notícia depois de ter enviado meu texto). Lula é o único chefe de Estado que goza de uma rede própria de contatos e amizades nos sindicatos do mundo inteiro (fez sua primeira viagem ao exterior, ao Japão, em 1973, como dirigente metalúrgico). Isso conta muito no trânsito de Lula nos países da Europa Ocidental e no Japão. Não contava nada nos EUA no tempo de Bush. Mas conta bastante no governo Obama. A imprensa brasileira não deu a menor pelota para o encontro de Lula com presidente do AFL-CIO, nem entrevistou Sweeney, cuja importância cresceu no governo de Obama, que o recebe frequentemente na Casa Branca, como sublinhou o New York Times. Não tenho a menor dúvida de que a conversa de Lula com Sweeney amaciou a conversa de Obama com Lula
Enfim, uma ponto interessante sobre a imigração brasileira nos EUA. Fragmingham, cidadezinha do Massachussets, ressuscitada econômicamente por imigrantes brasileiros que hoje são uma minoria-maioria, recebeu os primeiros policiais americano-brasileiros formados na Boston Police Academy. É uma nova etapa da evolução das duas últimas décadas que transformou o Brasil num país de emigração. Yes, we have latinos!
P.S. – O encontro com Lula ganhou mais repercussão porque a coletiva incluiu uma resposta de Obama a uma pergunta crucial do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, sobre a garantia ao trilhão de dólares que a China investiu na economia americana.
Encontro de Lula e Obama pode reescrever a influência do Brasil na América Latina
Seis anos depois de ter entrado pela primeira vez na Casa Branca, Lula volta a Washington para se reunir com o novo ocupante da sede do governo americano.
Na primeira vez, em dezembro de 2002, Lula ainda não tinha sido empossado na Presidência, usava um distintivo do PT na lapela e ninguém sabia como ia ser seu início de governo. George W. Bush, há dois anos na Casa Branca, reconfigurava a política externa após o 11 de Setembro. Desprendendo-se da ONU, Washington impunha uma hegemonia solitária sobre o resto do mundo. Num artigo escrito na época, o historiador Paul Kennedy, da Universidade Yale, recapitulava os desafios das superpotências precedentes-da Roma Antiga ao Império Britânico, no século 19- para concluir que nunca existira uma supremacia tão completa como a exercida pelos EUA no começo do século 21. Um termo novo passou a designar esse estatuto inédito: hiperpotência.
Ontem, quando Lula conheceu Obama, o encontro de 2002 com Bush recuou mais no passado: mudou o ocupante da Casa Branca e mudou o mundo. Um termo novo surgiu para definir a atual crise econômica: a "grande recessão".
Afora as incertezas globais, quais são os pontos que aproximam ou separam o Brasil e os Estados Unidos? Na conversa de Obama com Lula havia temas onde existia acordo prévio, como o repúdio ao protecionismo e a luta pela preservação ambiental, tema prioritário na agenda da atual administração americana.
Outros pontos eram controversos, como o etanol. Obama apoia as tarifas sobre a importação de etanol, tendo declarado no Senado, em 2007: "Não faz sentido para nossa segurança nacional e econômica substituir o petróleo importado pelo etanol brasileiro". Contudo, seu ministro da Agricultura, Tom Vilsak, e seu ministro da Energia, Stephen Chu, são contra essa barreira tarifária.
Venezuela e Cuba
Havia ainda na pauta questões delicadas, como as relações entre Washington e Caracas e o fim do embargo comercial a Cuba. A conversa sobre a Venezuela pode ter sido aleatória, dado o lado imprevisível de Hugo Chávez. Ao contrário, a questão cubana poderá ter avançado. De fato, há uma conjuntura favorável, mas faltam intermediários para resolver o contencioso americano com Cuba. Bem mais traumáticas, as relações entre os EUA e o Vietnã foram normalizadas quando John Kerry e John McCain, que lutaram e sofreram no Vietnã, organizaram uma comissão bipartidária no Senado para tratar do assunto. Nada similar existe no caso cubano, e há espaço para a atuação discreta da diplomacia brasileira. Também discretamente, um assunto fora de pauta pode ter sido abordado pelos dois presidentes: Foz do Iguaçu. Na semana passada, um relatório da Rand Corporation afirmou que a pirataria de filmes e DVDs na fronteira comum entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai rende milhões de euros por ano ao Hizbollah, movimento xiita libanês. Cedo ou tarde haverá um arrocho dos países da região no contrabando internacional da tríplice fronteira. Na perspectiva dos próximos encontros, Obama e Lula devem ter preparado a reunião do G-20 em Londres, onde os dois países têm posições comuns em alguns temas.
Outros encontros
Para sair da "grande recessão", Obama pensa que é preciso ampliar os investimentos públicos, criar empregos e socorrer empresas fragilizadas, deixando provisoriamente de lado o problema do déficit público. A União Europeia, principalmente a Alemanha, economia dominante da região, discorda. Nascida e criada na Alemanha Oriental, [a chanceler] Angela Merkel adquiriu alergia ao desequilíbrio orçamentário e às intervenções do poder público na economia, e mais fé na dinâmica do mercado. Obama e Lula, mas também o FMI e os dirigentes da China e do Japão, entre outros, são favoráveis à primeira solução. Note-se que as conversas prosseguirão noutros contextos. Lula estará com Obama em mais duas ou três ocasiões, em abril: na reunião do G-20 em Londres, no dia 2, na Cúpula das Américas em Port of Spain (Trinidad e Tobago), entre 17 e 19, e, possivelmente, no Fórum da Aliança das Civilizações, organizado pela ONU em Istambul [Turquia], em 6 e 7. Muita coisa deverá ser discutida. Os EUA, o Brasil e o planeta atravessam uma crise de grandes proporções cuja saída ainda não apareceu no horizonte. Obama não sabe direito como será o começo de seu governo e Lula não sabe como terminará o dele.

Coisa curiosa no Brasil é a aversão a considerar o embate político sob o prisma de um confronto entre esquerda e direita. Entre uma política propícia aos assalariados e ao serviço público, e uma política favorável aos mais ricos e à pauleira do mercado. Para começar, ninguém, nem o mais pertinaz reacionário, nem um autêntico filhote da ditadura, admite ser de direita. Em seguida, paira um consenso de que a direita e a esquerda são uma coisa só. Deste ponto de vista, os governos de FHC e Lula seriam mesmamente equivalentes (não se entende então porque Serra e Alckmin, candidatos de FHC, perderam por quase 20 milhões de votos as presidencias de 2002 e 2006). Na campanha do plebiscito de 1993 sobre « forma e sistema de governo » (armação constitucional tucana que, com o tempo, parece cada vez mais grotesca: dá para entender que a monarquia tenha sido tomada a sério no Brasil no final do século XX?), um cientista político da USP, defensor do parlamentarismo, pretendia que um dos males do presidencialismo era justamente a despolitização. E apontava as campanhas presidencias americanas como o exemplo supremo da indiferenciação política e de mesmice ideológica.
Pois bem, como observaram muitos analistas, no programa orçamentário apresentado anteontem, Obama demarcou dois campos políticos, duas políticas econômicas, duas políticas fiscais, duas opções sociais:
"[F]or far too long, the resilience, optimism, and industriousness of the American people have been frustrated by irresponsible policy choices in Washington," "Prudent investments in education, clean energy, health care, and infrastructure were sacrificed for huge tax cuts for the wealthy and well-connected. In the face of these trade-offs, Washington has ignored the squeeze on middle-class families that is making it harder for them to get ahead. Our Government has spent taxpayer money without making sure the numbers add up and without making it clear and understandable to the American people where their money was being spent. Tough choices have been avoided, and we have failed to make the wise investments we need to compete in a global, information-age economy....
"This is the legacy that we inherit — a legacy of mismanagement and misplaced priorities, of missed opportunities and of deep, structural problems ignored for too long. It’s a legacy of irresponsibility, and it is our duty to change it."
No New York Times, um longo artigo mostra como a política econômica e social de Obama é radicalmente diferente do governo Bush, e acrescento eu, do governo Bill Clinton. Em Paris, a manchete da edição impressa do Le Monde de hoje (datado de amanhã), é « Obama apresenta um orçamento de esquerda »
Jacques Callot, “Misérias da guerra – os enforcados” (1633)
De uma série de anúncios americanos dos anos 1950 dizendo que fumar era bom para a saúde
Foto Wilson Junior, Agência Estado
Walton Ford, “Falling Bough”, 2002,Watercolor, Cotesia Paul Kasmin Gallery, New York
Lula viaja mundo afora, visita países, conversa com chefes de Estado. E Lula tem razão. O Brasil tem tamanho, é um país pacífico, com potencial geopolítico e uma população vinda do mundo inteiro. Deve estar presente nos lugares em que se decidem as grandes questões. Assisti em Paris, em abril de 1976, a passagem do presidente-ditador Geisel, sob protestos que mobilizaram não só a esquerda e os republicanos de todas as tendências, como também os bispos franceses. Apoiei essas reações e também fui para a rua vaiar o ditador. Fico agora contente de ter visto presidentes como FHC e Lula serem bem recebidos e respeitados em toda parte. Nas Américas, na Ásia, na África, no Oriente Médio.
Outro dia foi anunciada uma grande 'descoberta' feita por pesquisadores do Center for Economic Policy Research (CEPR), de Londres: veiculando um padrão de família com poucos filhos, as novelas da Globo tiveram impacto na forte queda da taxa de fecundidade constatada no Brasil nas últimas décadas. Anunciada pela BBC, a notícia repercutiu pelo mundo afora, no Globo, na Folhaonline, no SkyNews, no New York Daily News e nas agências de notícias.
Embora ainda fosse madrugada por aqui, a leitura da « novidade » me deixou embatucado. Explico: desde o final dos anos 1980 e nos anos 1990 participei de seminários e debates no Cebrap em que Vilmar Faria -, autor do primeiro estudo sobre o assunto em 1989 -, e Elza Berquó, grande demógrafa e fundadora do Cebrap, discutiam e organizavam pesquisas sobre o tema. Joseph Potter, da Universidade do Texas, juntou-se às pesquisas iniciadas por Vilmar e em 1998 os dois publicaram um artigo intitulado : “Television, Telenovelas, and Fertility Change in North-East Brazil”,(in Richard Leete (ed.), Dynamics of Values in Fertility Change, Oxford: Oxford University Press, 1998). O ensaio teve impacto imediato e -, coisa muito rara -, foi citado num editorial do The New York Times, em junho de 1998. O texto foi depois publicado na revista do Cebrap em março de 2002. A tése dos autores, fundamentada em pesquisas, era basicamente a mesma que está sendo 'descoberta' 10 anos depois.
Os autores do estudo do CEPR citam 3 vezes (no estudo, não nas entrevistas aqui citadas) o ensaio de Vilmar e Potter. Mas, francamente, não avançam muito além das análises publicadas pelos dois. Acho até que as conclusões de Vilmar e Potter são mais complexas e sofisticadas que as do CEPR. Quem quiser, pode conferir. Mais ainda, o estudo do CEPR (feito por La Ferrara, Chong e Duryea) aparentemente ignora o grande estudo orientado por Vilmar, Potter e Elza, entre 1992 e 2000, cujo resumo transcrevo: “O projeto 'O Impacto Social da Televisão no Comportamento Reprodutivo no Brasil' é um projeto multi-disciplinar e multi-institucional que envolve, além do CEDEPLAR/UFMG, o NEPO/UNICAMP, o CEBRAP, a ECA/USP, além da University of Texas at Austin e Santa Clara University. O objetivo do projeto é mostrar como a televisão teve impacto nas mudanças reprodutivas observadas no Brasil recentemente, incluindo a queda da fecundidade propriamente dita e as mudanças ideacionais (ideational changes) com relação à reprodução, sexualidade e uso de contraceptivos. O argumento, inicialmente proposto por Faria (1989), é de que a política governamental de incentivo à expansão dos meios de comunicação de massa, aliada à ampliação do crédito ao consumidor e à medicalização, geraram efeitos não intencionais e não esperados sobre a fecundidade e as práticas contraceptivas. O projeto teve início em fevereiro de 1992 com um workshop em Austin, Texas. ... A pesquisa de campo propriamente dita foi feita entre junho de 1996 e fevereiro de 1997, enquanto a novela das 8 da Rede Globo O Rei do Gado esteve no ar. ».
Este projetaço, discutido em universidades americanas e brasileiras, teve trabalho de campo e pesquisas derivadas publicadas dentro e fora do país. A melhor prova que a pesquisa do CEPR não « descobriu » nada de tão novo assim, pode ser verificada nos resumos das duas pesquisas, publicados na mídia novaiorquina com dez anos de intervalo.
Em 1998, o editorial do New York Times dizia: “Vilmar Faria, a Brazilian sociologist, and Joseph Potter, a University of Texas sociologist, argue that the drop in fertility tracks the spread of television -- dominated by the universally popular nightly soap operas known as telenovelas. For many poor, the telenovelas provided their first glimpse of small, less authoritarian families and of consumer culture. Women realized they could choose fewer children, and that children had a cost ».
Há três dias, o New York Daily News, jornal de 2a. divisão de Nova York, afirmou, num tom mais vulgar, no meio do noticiário geral: Soap operas are contributing to a population decline in Brazil, according to a new study - and not just because people are too busy watching TV to get busy in the bedroom. A study by the Center for Economic Policy Research (CEPR) says that Brazil's national addiction to soap operas is to blame for a drastic decline in fertility rates there over the past four decades. The small families depicted on the soaps, the study says, are causing real women to want fewer children of their own.
Dez anos atrás, trouxe de NY para Vilmar o exemplar do NYT com a primeira citação. Ele ficou feliz. Agora, ponho as duas citações lado a lado neste post. Espero que ele também tenha ficado contente, lá onde se encontra.
clicar para ler
Capa da edição de 1883 de Les Travailleurs de la Mer, de Victor Hugo
Crianças colombianas mobilizadas na 'Guerra de los mil dias" (1899-1902)

Torre de Babel, Pieter Brueghel, o Velho, 1563, Kunsthistorisches Museum, Viena
Carlos Schwabe (1877-1927), A morte do coveiro, Musée d'Orsay, Paris.
Saiu outro livro, agora aqui na França, sobre o império português, no qual estou envolvido. Trata-se de L'Empire portugais face aux autres empires. XVIe-XIXe siècle, organizado por Francisco Bethencourt e por mim, e publicado pela editora Maisonneuve et Larose (Paris).
Francis Bacon, Autoportrait, 1976, JSC Gallery
Walton Ford The Sensorium, 2003, Cortesia da Paul Kasmin Gallery
Tim Hawkinson, Emotor (detalhe), 2001, Coleção particular, Courtesy Ace Gallery, Los Angeles
Como já escrevi abaixo, não tenho a menor simpatia por Putin. Todos os democratas da Rússia, Oropa e Bahia têm mêdo do autoritarismo deste ex-meganha do KGB. Mêdo que ele feche ainda mais o frágil sistema político russo. Mas, na semana passada, o homem prestou um serviço relevante ao seu país e à democracia. Homenageava-se as milhares vítimas dos massacres perpetrados em 1937 por Stalin. Num discurso em Butovo, perto de Moscou, onde milhares de pessoas – camponeses, operários, intelectuais, donas de casa – foram fuziladas, Putin lembrou as vítimas e afirmou que estas tragédias acontecem quando “idéias ostentivamente atrativas mas vazias são postas acima de valores fundamentais, valores da vida humana, de direitos e de liberdade”. O New York Times fez um editorial sobre o assunto, retomado no Herald Tribune. Outros jornais também falaram nisso.
Abu Dhabi é o principal emirado (Dubai é o segundo mais importante) da confederação formada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU). A região é fascinante.


Walton Ford, Nila, 1999-2000, Coleção Privada, New York, Courtesy the Artist and Paul Kasmin Gallery
A série de desastres, de apagões nos aeroportos, de descontroles dos controladores de vôo, de afrontas das companhias de aviação e de declarações estapafúrdias dos membros do governo revela algo mais que o caos aéreo.
Os economistas brasileiros já sabem: quando há aumento da renda, o consumo popular de produtos de higiene e cosméticos sobe na hora. Aliás, nunca li nenhum estudo sobre a forte atração dos brasileiros por estes produtos. Suspeito que tenha a ver com o culto do corpo e o eventual desconforto de cada um com o seu jeito, com o seu próprio fenótipo. A coisa vem desde o século XIX, como mostrei um pouco no volume 2 da História da Vida Privada no Brasil. De todo modo, quando há um pouco mais de dinheiro na praça, as multinacionais entram pesado, inundando as prateleiras das lojas com “gosméticos” (como dizia uma garotinha minha conhecida) de nome pseudo-sofisticado. Na outra ponta, desaparecem os produtos tradicionais. Sempre que vinha ao Brasil, comprava sabão Aristolino, um must da moçada das praias nos anos 60 e 70. Agora, já desistí. Sumiram com o Aristolino, que era sabão e shampú, e com muitos outros ‘gosméticos’.
Blogueiro itinerante fica meio paradão. Ainda mais com a pasmaceira do internet aqui em Paraty, onde estou agora.
Ontem de manhã, esperando no Galeão as malas do vôo que me trouxe de Paris, reconheci J.M. Coetzee, vindo no mesmo avião na ponta da mesma esteira. Como a coisa estava demorando, puxei papo com ele. Tietagem às 5 da manhã, acompanhada de uma oferta de ajuda no solo brasileiro, não é assim tão grave e ele conversou à vontade. Vinha da região de Toulouse, no Sul da França. Quando eu disse que era professor em Paris, ficou muito interessado em saber as reações dos estudantes e dos professores sobre as propostas de reforma universitária de Sarkozy. Pareceu-me bastante informado sobre este e outros assuntos da França, Argentina, Austrália (onde mora). Contei pra ele que há uns dias, no final de uma correção de provas de fim de ano universitário, disse para os 3 monitores que trabalham comigo que estava vindo para a Flip, Paraty, que Nadine Gordimer e ele estariam aqui, etc. Aí, um dos monitores, um carinha jovem, sacou do bolso um livro dele, Coetzee. Ele deu um sorriso feliz, contentão, ali no meio do giro das malas. Hoje, às 5 da matina, em Paraty, sem sono por causa do jet-lag, vim vaguear no salão da pousada e dei de cara com ele de novo: estamos hospedados no mesmo lugar e ele também estava atrás do internet. Conversamos um pouco. Mas daqui em diante recolho-me à minha insignificância e dou apenas um olá de longe: o homem me parece já estar meio farto de assédio e entrevistas: é duro ser prêmio Nobel e um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje.
Dois artigos interessantes, um no Le Monde, outro no New York Times, apontam novas configurações da esquerda na França e nos EUA.
Muita coisa para comentar, dentro e fora do Brasil. Mas é difícil deixar de falar de novo da guerra no Complexo do Alemão, depois da foto de Tasso Marcelo, da Agência Estado, publicada na quarta-feira no portal UOL. Mesmo mal editada, ela trouxe à memória a célebre fotografia de Sam Nzima, no dia 16 de junho de 1976, durante o massacre provocado pelo regime de apartheid sul-africano no gueto de Soweto, subúrbio de Johannesburg. Claro que não há apartheid no Brasil, claro que o governo Lula e o governo de Sérgio Cabral, não tem nada em comum com o filo-nazista Vorster, primeiro-ministro sul-africano em 1976.
Trabalhadores cativados numa olaria chinesa, foto Agence France-Presse — Getty Images no New York Times de 16/06
A foto de Michel Filho saiu no GloboOnline de hoje, seguida da descrição da cena. Mães e crianças fogem na saída de uma escola do Morro da Fazendinha (RJ), em meio a um tiroteio entre a polícia e os traficantes. Crianças e mães, em maioria negras, arriscando a vida no seu dia a dia. A notícia diz ainda que na zona vizinha do Complexo do Alemão a batalha já dura 49 dias. Quarenta e nove dias. Mortos, famílias aterrorizadas, meninada fatalista.
Lido aqui de manhã cedo, quando no Brasil ainda é alta madrugada, o editorial de hoje da Folha, “O caso Lamarca”, me deixa perplexo. Os argumentos avançados no texto, contrários à decisão de promover Lamarca a coronel e indenizar sua família, parecem coerentes. Mas em nenhum momento fazem referência à fundamentação jurídica seguida pela Comissão de Anistia.
A matéria abaixo saiu no sítio do Estadão de domingo, dia 3. Trata-se de um trecho da resenha do jornalista Gabriel Manzano Filho sobre o livro Em Calendário do Poder, em que Frei Betto conta sua experiência como conselheiro de Lula no Planalto.
Já falei da mudança ocorrida recentemente, quando o número de emigrantes, pela primeira em vez em nossa história, sobrepujou o número de imigrantes. A questão da emigração tem sido pouco discutida. Os bancos e os "cabeças de planilha" (a expressão é de Luís Nassif) falam com água na boca dos bilhões dólares que os emigrantes mandam para o Brasil. Mas pouco se lhes dá que muitos brasileiros estejam se estrepando nas quatro partes do mundo. Ao final de muito tempo, o Itamaraty construiu um sítio decente sobre o tema. E durante algumas semanas, no começo de 2006, a novela América, da Globo, pôs a emigração em pauta. Porém, a televisão brasileira é basicamente burra. Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga plantaram os migrantes nordestinos no coração da tragédia social brasileira. Mas todos os capítulos de América só serviram para dar uma efêmera notoriedade a atores globais. O drama humano da emigração para os EUA sumiu por detrás dos cabelos de Deborah Secco.
Livro de Receitas (1495-1505), do Sultão de Mandu (norte da India), aconselhando alimentar vacas com cana para obter leite açucarado, British Library
Estou em Salamanca dando um curso na Universidade, no quadro do Centro de Estudios Brasileños. Leio todos os dias El Pais que traz uma boa cobertura do debate sobre o aborto e a visita do papa no Brasil.
João Teixeira Albernaz, Bahia, 1631
A foto foi publicada no jornal cubano Granma e reproduzida no portal de O Globo. Fidel recebe uma delegação oficial chinesa dirigida por Wu Guanzheng, manda-chuva do PC da China.
A legenda desta foto de Fábio Motta, da Agência Estado, publicada no sítio UOL, diz o seguinte: »Polícia apreende réplica de espada medieval no Rio».
Tiziano, O rapto de Europa, 1559-1562 © Isabella Stewart Gardner Museum, Boston