sábado, 24 de outubro de 2009

Homenagem antecipada ao aniversário da morte de Zumbi dos Palmares

O texto abaixo é extraído de um artigo meu intitulado História Geral das Guerras Sul-Atlânticas: o episódio de Palmares que será publicado em Flávio Gomes (org.), Mocambos de Palmares. História, historiografia e fontes. 7Letras editora/FAPERJ, R.J.,2009.
O tema do artigo é mostrar (de novo) que o Atlântico Sul configurava um só espaço colonial unindo o Brasil à África portuguesa, e principalmente à Angola. Noutra parte do artigo, mostro como Palmares também foi atacado por milicianos reinóis e “brasílicos” (colonos do Brasil que ainda não possuiam o sentimento nacional) que haviam combatido em Angola. E tinham, portanto, a prática das guerras africanas. Aqui me concentro num poema sobre milicianos pobres que reclamam por não ter recebido prebendas após a destruição de Palmares. Nas notas de pé página marquei as diferenças entre esta interpretação e as análises de Luiz Mott e de Clóvis Moura, que também estudaram o poema. Marco, antecipadamente, o aniversário da morte de Zumbi, no dia 20 de novembro.
***
« Um texto de um pé-rapado brasílico reinvidica sua parte de glória na defesa do ultramar. Trata-se de um poema sobre a petição dirigida ao Conselho Ultramarino por um soldado raso que combatera como “praça de pé” (sic) no ataque final a Palmares, em 1694. Pereira da Costa, sempre atento à documentação, publicou o poema em seus Anais Pernambucanos. Mas não indica de onde o extraiu, nem se havia papelada anexa. Composto no esquema de rima abbaaccddc, o poema é uma variante da „décima espinela‟, forma literária do barroco ibérico utilizada, entre outros, por Calderon de la Barca (“La vida es sueño”) e Gregório de Matos (“Define sua cidade”). Na sequência, a décima popularizou-se na América Latina, sendo ainda celebrizada nos dias de hoje pela guajira cubana, a literatura de cordel e os violeiros nordestinos. Neste caso -, como no gênero “dez a quadrão”-, a décima é dialogada, com um violeiro entoando um verso, o outro o verso seguinte, e os dois juntos cantando os dois últimos versos. Assim, a décima dá ao poema o tom de uma queixa picaresca que pode ter sido lida, recitada ou cantada em Pernambuco, dando grande alcance às sentenças dos versos. Zebedeu, nome de origem bíblica tornado folclórico em Pernambuco e noutras partes, “filho de Braz Vitorino” (para rimar com Conselho Ultramarino), não se refere aqui a uma pessoa precisa, mas a um grupo de soldados pobres, preteridos na distribuição de presas e prêmios depois da guerra de Palmares. O apelo ao Conselho Ultramarino -, “justiceiro” e “afamado”-, merece reflexão.
Os versos ilustram o conhecimento amplo, nesta parte do ultramar, de que este foro palatino -, mais que o governador da capitania, o governador-geral e o próprio rei -, apresentava-se como a instância legítima e adequada para a solução definitiva dos contenciosos coloniais. Em seguida, como apontei alhures, evidencia-se a repactuação entre o centro e a periferia mediante a distribuição de cargos e o reescalonamento do mérito dos combates ultramarinos.
Contemporâneo da obra de Gregório de Matos, o poema retrata a situação do praça de pré, recrutado “quase menino” e despachado mal equipado, descalço (talvez venha daí a autoironia da expressão “praça de pé”), para a friagem da Serra da Barriga. “De fome e frio morrendo, descalço de pés no chão”, para ali combater “noite e dia”, onde “se estrepou” (isto é, se feriu no “estrepe”, paus pontiagudos postos em torno de Palmares ou enfiados em buracos dissimulados, os “fojos”). Sem receber nenhuma recompensa em propriedade, em soldo ou em promoção, nem “terras, [nem] dinheiro, [nem] patente”. O verso sobre o “valentão” Félix José pode referir-se à generalidade dos camponeses açorianos vítimas de recrutamento forçado, cuja inexperiência de combate valia-lhes frequemente o apodo de “bisonhos”. Tanto Zebedeu, pobre “bolônio” (bocó), como seus aparceirados, foram em frente, dando batalha feroz aos palmaristas, “vis escravos” a quem “não trataram como gente”, quer dizer, a quem trataram como se fossem bichos. No final das contas, foram os soldados e cabos que se acovardaram que receberam recompensas.
Sem recomendações de seus superiores ou de potentados locais, estes “zebedeus” invocavam a proteção e o testemunho de santo Antônio, de quem traziam o santinho ou a medalha (“junto a mim noite e dia”), e que fora oficialmente declarado patrono e soldado pago das tropas que atacaram Palmares. E no final, o pedido para o que dá o direito de juntar bandoleiros e pilhar índios e quilombolas com a chancela da Coroa. A única saída para quem não tinha nome ou propriedade. O lugar de quem tudo pode no sertão: capitão
Eis o poema em verso quebrado do praça estrepado:
“Ao Conselho Ultramarino
Que tão justiceiro é,
Zebedeu praça de pé
Filho de Braz Vitorino,
Bem moço, quase menino,
Para Palmares marchou,
Pelo que lá se estrepou
Sendo um dos desgraçados,
Que voltaram aleijados
E por fim nada ganhou.

Ali de arcabuz na mão,
Dia e noite combatendo,
De fome e frio morrendo,
Descalço, de pés no chão,
Ao lado do valentão Félix José dos Açôres
Que apenas viu dos horrores,
O painel desenrolar-se
Foi tratando de moscar-se
Com grande sofreguidão.

Do que venho de narrar,
Apesar de ser bolônio,
Pode o padre Santo Antônio
Muito bem corroborar,
O que não é de esperar
Proceda d'outra maneira,
A sua fieira
Sua afeição, valentia,
Pois junto a mim noite e dia
Não desertou da trincheira

Ele viu, bem como eu,
Quando o combate soou
Quando a corneta tocou,
A gente que então correu;
A essa foi que se deu
Como garbosa e valente
Terras,dinheiro, patente
Com grande injustiça e agravos
P'ra aquêles que aos vis escravos
Não trataram como gente.

A vós Conselho afamado
Que a justiça só visais,
Para que não amparais
O pobre do aleijado?
Que no mundo abandonado
Sem ter quem lhe estenda a mão,
Tem por certo a perdição,
Da vida, pois quase morto,
Só poderá ter confôrto,
Se o fizerdes - capitão.”

Quer tenham sido mercenários dos fazendeiros na América, quer fossem milicianos agregados às tropas regulares em Angola, tais combatentes – capitães, cabos e “zebedeus” -, faziam valer seus talentos de bugreiros e de capitães do mato nos dois lados do mar.
Para além dos documentos, e na ausência de outros textos como o poema acima, é preciso considerar a troca de experiências facultada pelo convívio destas tropas tricontinentais, multiétnicas e de variada condição social, cujo traço comum era o Atlântico Sul, e não o Brasil ou Angola. Torna-se essencial mapear os itinerários para saber quem conversava com quem, num mundo em que muita gente sabedora das coisas não sabia escrever. Nos arranchamentos angolanos e brasileiros, nos tombadilhos dos navios que atravessavam o oceano, nos serões africanos e nas selvas americanas, essas tropas compunham um gênero de novo exército colonial de brancos, negros, índios e mestiços que, “de pés no chão”, pilhava rebeldes e nativos dos dois continentes.
Não há exemplo de tropas deste gênero e com este raio de ação, agindo nos outros teatros da moderna expansão européia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Itamar e o passado que não passa



Há uns dias, o ex-presidente Itamar Franco deu uma entrevista à revista Época. O tema de suas declarações é a acusação de que Lula enfraquece o Legislativo. A idéia tem fundamento e Itamar poderia justificá-la de várias maneiras. Porém, ele envereda num raciocínio tortuoso que ilustra a deferência com a qual boa parte da elite política trata a ditadura.
Cito sua explicação sobre a atitude de Lula frente ao Legislativo.
“Primeiro, o presidente foi um parlamentar obscuro. Como parlamentar, ele qualificou que lá havia 300 e tantos picaretas. Esquecendo que ele também estava lá...Como a pessoa [Lula] não conhece a história democrática do país... Ele não tem a mínima consideração pelo Legislativo. Quando o presidente tenta impedir uma CPI, como foi a CPI da Petrobras, é outra interferência indevida. No regime militar, em 1975, havia uma questão tão importante para o presidente Geisel quanto a Petrobras hoje: era o acordo nuclear (do Brasil com a Alemanha Ocidental). Numa proposta do então senador Paulo Brossard, criou-se uma CPI para examinar o acordo. E a CPI não foi impedida, apesar de ser um regime militar. E era igualzinho hoje: nós éramos 3 senadores da oposição e 8 do governo. E mais ainda: se permitiu que um senador da oposição, coincidentemente eu, presidisse a CPI. Aqui, não. Com um erro que nem os militares fizeram: o presidente e o relator (da CPI da Petrobras) são do governo.”
Hoje, Itamar retomou seus argumentos numa entrevista do
Estadão, que teve repercussão na Folhaonline
Como muita gente, e talvez mesmo, a maioria dos brasileiros, Itamar chama o período mais sinistro e autoritário de nossa história nacional de “regime militar”. Por isso, ele pode partir para este tipo de comparações extravagantes.
Assim, a idéia que a ditadura – responsável pela cassação, encarceramento e exílio de parlamentares, pela tortura e assassinato de ex-parlamentares, pelo fechamento do Congresso e a proibição dos partidos políticos – seria liberal, é propagada por um velho senador da República. Por um ex-presidente que gaba-se de conhecer a “história democrática do país”. É o passado que não passa. Itamar pensa que a ditadura faz parte de uma normalidade institucional alternando períodos democráticos e períodos de pura boçalidade. Itamar pensa que no Brasil a democracia é contingente.
P.S.Para complementar este tópico, leia-se o perfil do senador Marco Maciel publicado na Carta Capital do dia 28/08. A jornalista Cynara Menezes, autora do artigo, menciona que o “monge do Parlamento” (sic) pertenceu à Arena. Mas não diz que ele foi um fiel serviçal da ditadura. Assim, o “monge” presidia a Câmara dos Deputados quando o ditador Geisel decretou o “Pacote de Abril” (13/04/1977), fechando o Congresso e instaurando truculências (como os senadores biônicos) que prolongaram o regime autoritário no Brasil. A jornalista pensa que a maior qualidade moral do senador pernambucano reside na modéstia de seu patrimônio, após 50 anos de vida pública. Para ela, desde que não se roube, está tudo bem.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O intérprete geral das caretas turcas


Hoje, ficou o dia inteiro no sítio do Estadão, a notícia da alegada “gafe” de Lula na Turquia. Segundo Jamil Chade, correspondente permanente do jornal em Genebra, Lula teria perpetrado o grave deslize diplomático ao afirmar "No Brasil, tem uma coisa interessante que vocês precisam conhecer",... "Apareceu alguém vendendo algo na porta de um brasileiro, ele sabe que é um turco que está vendendo"... "Qualquer vendedor que for vender um produto na casa das pessoas, prontamente ele é chamado de turco. Eu não sei se é o turco nascido em Istambul ou no tempo do Império Otomano, nascido na Arábia Saudita ou no Líbano" "É preciso fazer jus a essa especialidade de comercializar do povo turco para que possamos estreitar as relações comerciais entre o Brasil e a Turquia".
Jamil Chade explica então doutamente: « Os turcos não são árabes e nem falam a mesma língua. A presença de turcos na imigração no Brasil é quase insignificante e as populações vindas do Líbano e Síria apenas ganharam esse nome diante do fato de chegarem com passaportes do Império Otomano”.
Ora bolas: Lula não disse que os turcos são árabes. Disse que quem vinha da Turquia, da Árabia Saudita ou do Líbano no tempo do Império Otomano, era chamado de turco no Brasil (e terminou num tom simpático aos turcos). Não há aqui ofensa ou disparate. O "apenas" de J. Chade està carregado de historia e constitui a essência do problema. Algo similar acontecia com quem saia do império austro-húngaro ou da URSS : as nacionalidades integradas nestes Estados não tinham identidade própria na esfera internacional. Jamil Chade diz ainda que Lula “tentou explicar” o uso da palavra “turco” no Brasil, “sem qualquer reação da plateia” e em seguida acrescenta “a platéia não riu”. Para dar alguma consistência à sua crítica, Jamil Chade diz ainda, “Lula ainda fez alguns empresários levantarem a sombrancelha ao anunciar que o Brasil tinha "17 milhões de quilômetros de fronteira terrestre". Lula se enganou nos números sobre a fronteira terrestre brasileira. E dai? Dava para fazer disso uma notícia com chamada no sítio do jornal ? Hà bastante coisa para ser dita contra o que Lula ou o Itamaraty fazem ou deixam de fazer. Mas nem sempre Jamil Chade acerta. Durante uma época, ele escrevia a respeito da « preocupação » existente em Genebra a próposito de uma alegada « venezuelização » da diplomacia brasileira. Moro em Paris há trinta anos, viajo e leio os jornais daqui e dali, e converso às vezes com gente que sabe das coisas diplomáticas e afins, interesso-me e escrevo sobre o assunto. Nunca ouví alguém expressar opiniões deste calibre sobre a diplomacia brasileira. Em todo caso, Jamil Chade, em respeito a seus leitores, deveria evitar escrever artigos baseados nos seus talentos de intérprete geral de caretas e sombrancelhas dos empresários turcos.

domingo, 17 de maio de 2009

Making of do artigo "Commodities por sapatos" sobre a viagem de Lula

Trecho do livro Tratado das coisas da China (1570), escrito pelo dominicano alentejano, Frei Gaspar da Cruz, pioneiro da sinologia ocidental.

No artigo no caderno Mais, da Folha não falei de um assunto importante, que não estava em pauta, mas é ligado à China . Na entrevista que deu ontem para a Folha, Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, que mora e trabalha na China há 8 anos, ilustrava a falta de interesse com a China, primeira parceira comercial do Brasil: “quando eu visito a embaixada chinesa em Brasília ou o consulado chinês em São Paulo ou no Rio, sou recebido por vários diplomatas chineses que falam português. Não temos ninguém no Itamaraty, ou no governo brasileiro, que fale chinês. Você chega à embaixada brasileira em Pequim e é recebido por secretárias que falam espanhol ou inglês. Não tem cabimento”.

A reflexão poderia ser estendida às universidades brasileiras. Os especialistas brasileiros sobre a China ainda são pouco numerosos. Portugal e os missionários portugueses foram os primeiros europeus a estudar a China a partir da feitoria de Macau, estabelecida desde 1557. O Colégio São Paulo de Macau, dos jesuítas portugueses, formou os primeiros sinólogos do mundo. Macau permaneceu sob soberania portuguesa até 1999. Há, portanto, ampla documentação sobre a China em língua portuguesa, estudada desde sempre pelos especialistas europeus, americanos e asiáticos. Não conheço historiador ou cientista social brasileiro que fale e leia madarim e trabalhe nos arquivos de Macau. Pelo que sei, no departamento de História da USP, a maior universidade do país, a situação até piorou. Nos anos 1980, havia o professor Ricardo Mário Gonçalves que sabia mandarim e dava aulas sobre civilizações do Extremo Oriente. Agora, há muito mais estudantes interessados na China, mas não existe nenhum especialista na área no departemento. Ora, no caso da China, como no caso da África, o papel da história tem um caráter fundador: é essencial para dar a dimensão do tema e abrir caminhos para outros setores das ciências sociais e da biociência.Quando o saudoso Antônio Alçada Baptista dirigia, nos anos 1980-1990 a Fundação Oriente (na época, cheia de dinheiro doado pelos cassinos de Macau) procurou, em vão, projetos de pesquisa brasileiros sobre a China que pudessem serem financiados pela Fundação.

Nunca aconteceu isso antes : na época em que a Inglaterra era a primeira parceira comercial do Brasil, no século XIX, os dirigentes brasileiros sabiam das coisas inglesas, iam a Londres e liam inglês. Idem para os Estados Unidos, primeiro parceiro comercial do Brasil no século XX. Quando se sabe que a formação de especialistas em um novo campo de pesquisas demora uma geração, fica-se perplexo. Taí a África que não me deixa mentir.

No começo dos anos 1960, o Itamaraty viu logo que Portugal ia ser posto para a rua de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé. Na mesma altura, José Honório Rodrigues escreveu um livro pioneiro, Brasil e África,outro horizonte (1961), que abria muitas pistas de pesquisa. Paralelamente, a documentação portuguesa sobre a África era enviada gratuitamente para as grandes universidades brasileiras e muito bem organizada e catalogada no Gabinete Português de Leitura, no Rio. Mas só agora – 40 anos depois, seu doutor ! – no começo do século XXI, começaram a aparecer as primeiras teses brasileiras consistentes sobre a África lusófona. No meio tempo, a produção anglo-saxônica (inglesa, americana, canadense e australiana) tomou distância, formando inclusive importantes especialistas brasileiros de Angola, como Roquinaldo Ferreira e Mariana Cândido, que foram logo recrutados por grandes universidades americanas. (O carioca Roquinaldo, o maior conhecedor do arquivo de Luanda - na opinião do arquivista de là -, e autor de uma tese inovadora sobre Angola feita na Universidade da California, fez concurso para um posto de história África Central na Unicamp e não passou...passons. Teve, na hora, ofertas de universidades americanas e, em especial de Joseph C. Miller, o mais importante especialista mundial da história de Angola, da University of Virginia, onde agora Roquinaldo é um professor muito respeitado).

Outro coisa, falei no artigo sobre o livro (Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso) do imã Abdurrahmã Al-Baghdádi que ficou entre 1865 e 1868 no Brasil, esteve no Rio, Bahia e Pernambuco, onde conheceu africanos muçulmanos brasileiros. Há um link do livro traduzido para o inglês por Yacine Daddi Addoun e Renée Soulodre-La France. Conheci Yacine quando estive no Harriet Tubman Center de estudos afroamericanos da Universidade de York (Toronto), é um cara sério, boa praça, que trabalha sobre o fim da escravidão na Argélia e se interessa pelos trabalhos dos historiadores brasileiros que fazem pesquisa sobre Angola.

domingo, 5 de abril de 2009

Lá se foi Marcito


Márcio Moreira Alves conviveu conosco e foi muito ativo em Paris e em Havana na oposição à ditadura. “Conosco”, quer dizer a tchurma de Miguel Arraes e de Violeta Gervaiseau (irmã de Miguel, que faleceu no ano passado e nos deixou zangados: ela não devia ter morrido: faz muita falta). Violeta, figuraça e chefe de todos nós, falava no telefone nos anos 70, e dai pra frente, com um código facilzinho para despistar eventuais escutas da polícia francesa: Marcito era o “deputado”, Miguel o “doutor”, Celso Furtado o “ministro”, Samuel Wainer “ o “profeta”, Glauber Rocha o “cineasta”, Fernando Henrique o “sociólogo”, Roberto Schwarz o “ professor”. Ela própria, Violeta, nós a chamávamos “Madame”, seguindo a alcunha dada pelo “doutor”. Um dia, numa reunião na casa de Madame, Marcito, vindo de Havana, trouxe uma notícia sombria: os cubanos avisavam que o “doutor” (que morava em Argel mas vinha sempre à Paris) estava numa lista de líderes da esquerda latino-americana que podiam ser assassinados pela operação Condor (a gente ainda não sabia o nome desta quadrilha de assassinos): Orlando Letelier, ex-chanceler e embaixador do Chili de Allende em Washington, foi assassinado na capital americana em 1976, à duas quadras na Casa Branca (e Bush pai, diretor da CIA na época, não soube de nada!), e mais, o ex-senador da esquerda uruguaia Michelini, o presidente da camara dos deputados uruguaio, Guterriez, e o ex-presidente boliviano, Torres, foram assassinados em Buenos Aires no mesmo ano e Prats, general allendista, também havia sido assassinado em Buenos Aires em 1974. Com a informação sobre o “doutor”, Madame ficou abalada, e Marcito se emocionou. Nosotros también.
O “deputado” era um cara cheio de nuances. Tinha uma voz impositiva e um jeito arrogante, mas não era nada assim: falava um disparate e depois fazia um sorriso simpático, todo disponível para escutar uma réplica e uma explicação (as moças eram bastante receptivas ao sorriso dele). Quando ele defendeu a tese de doutorado aqui em Paris, o “ministro”, que fazia parte da banca, e era um intelectual rigoroso, sobretudo na banca de amigos, fez críticas de grande calibre. Mas o “deputado” não levou a mal, nem na hora, nem nos anos seguintes. Quando Collor tomou posse, Marcito escreveu um artigo elogiando o “Plano Collor” na mesma página do JB onde eu publicava um texto dando um pau no dito cujo. Mas ele me encontrou depois com o mesmo sorriso simpático.
Ele sabia “encaisser le coup”. Porém, a confusão do AI - 5 ainda pesava nas suas costas . Anos antes, em Paris, eu morava num apê mínimo, rue du Dragon, e ele veio encontrar um amigo que dormia na minha saleta (mais por causa do ponto do que pelo conforto) entre uma viagem e outra de Havana a Paris. Apoiou-se numa mesinha onde tinha umas caixas de sapatos, cheias de fichas sobre documentos do Brasil no século XIX, e derrubou tudo no chão. Apanhei tudo numa boa, mas levei tempo para não misturar coisa com coisa. E fiz cara feia. Márcio ficou passado e depois disse para nosso amigo: “porra, faço tudo errado! Cheguei lá e logo derrubei as fichas dele!”. Ora Marcito, não é verdade: você fazia tudo certo: Acabei reorganizando minhas fichas de um jeito melhor!

sábado, 21 de março de 2009

VAI FALTAR AGUA MADAME!

Há 25 anos assistí em Paris, com uns amigos este programa da candidatura de René Dumont à presidência da França. No final, nossa tchurma vaiou o véio : a gente sabia tudo, a gente era mocinho, a gente era mitterrandista, a gente era pra-frentista ou anarquista, e ainda por cima bonitinhos: o papo dele era furado ! Mas o papo bateu na minha cachola: o véio tinha razão antes de todo o mundo: vai faltar água!! Alguns amigos que estavam lá comigo viraram logo depois ecologistas -, uma forma light mas consistente de anticapitalismo. Agora leio esta notícia no Estadão sobre o problema mundial da falta d'água e lembro de novo que o véio tinha razão. Salve René Dumont !!

domingo, 15 de março de 2009

Anexo ao texto publicado na Folha de hoje

Foto Pete Souza, White House

Concluí o texto abaixo para a Folha quinta à noite. Hoje, diante da profusão de artigos e comentários de blogs sobre o encontro Lula-Obama e a conferência de imprensa dos dois na Casa Branca, vale a pena anexar alguns pontos.

Quando dois chefes de Estado conversam há uma parte do papo que é reservada, com os intérpretes mas sem assessores (houve meia hora de conversa assim). Em seguida, as delegações combinam o que vão dizer para a imprensa. O assunto da normalização das relações com Cuba, que Celso Amorim na entrevista no Estadão julgava “inevitável” na pauta da Casa Branca, não foi comentado na coletiva. Mas não quer dizer que não tenha sido discutido. No encontro havia James Steinberg, subsecretário de Estado, o general James Jones, do Conselho de Segurança Nacional (NSC), Thomas Donilon, vice no NSC, Dan Restrepo, assessor para o Hemisfério Ocidental do NSC e Larry Summers. Ou seja, o vice de Hillary (Steinberg), o principal assessor econômico (Summers) e três membros do NSC, gente paga para seguir perto países complicados como Cuba, Venezuela e Bolívia. De todo modo, Cuba é um tema sensível na política externa e interna americana: ninguém imaginava que Obama fosse evocar o assunto numa entrevista coletiva com um chefe de Estado estrangeiro.

Outro ponto: antes de chegar à Casa Branca, Lula se reuniu com um velho amigo, John Sweeney, sindicalista que preside o AFL-CIO, a mais poderosa organização sindical americana, com 10 milhões de afiliados, cujo apoio é fundamental para o Partido Democrata e para Obama, sobretudo numa crise dessas (só topei com esta notícia depois de ter enviado meu texto). Lula é o único chefe de Estado que goza de uma rede própria de contatos e amizades nos sindicatos do mundo inteiro (fez sua primeira viagem ao exterior, ao Japão, em 1973, como dirigente metalúrgico). Isso conta muito no trânsito de Lula nos países da Europa Ocidental e no Japão. Não contava nada nos EUA no tempo de Bush. Mas conta bastante no governo Obama. A imprensa brasileira não deu a menor pelota para o encontro de Lula com presidente do AFL-CIO, nem entrevistou Sweeney, cuja importância cresceu no governo de Obama, que o recebe frequentemente na Casa Branca, como sublinhou o New York Times. Não tenho a menor dúvida de que a conversa de Lula com Sweeney amaciou a conversa de Obama com Lula

Enfim, uma ponto interessante sobre a imigração brasileira nos EUA. Fragmingham, cidadezinha do Massachussets, ressuscitada econômicamente por imigrantes brasileiros que hoje são uma minoria-maioria, recebeu os primeiros policiais americano-brasileiros formados na Boston Police Academy. É uma nova etapa da evolução das duas últimas décadas que transformou o Brasil num país de emigração. Yes, we have latinos!

P.S. – O encontro com Lula ganhou mais repercussão porque a coletiva incluiu uma resposta de Obama a uma pergunta crucial do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, sobre a garantia ao trilhão de dólares que a China investiu na economia americana.

UMA CONVERSA MUITO SÉRIA

Encontro de Lula e Obama pode reescrever a influência do Brasil na América Latina 

Seis anos depois de ter entrado pela primeira vez na Casa Branca, Lula volta a Washington para se reunir com o novo ocupante da sede do governo americano.
Na primeira vez, em dezembro de 2002, Lula ainda não tinha sido empossado na Presidência, usava um distintivo do PT na lapela e ninguém sabia como ia ser seu início de governo. George W. Bush, há dois anos na Casa Branca, reconfigurava a política externa após o 11 de Setembro. Desprendendo-se da ONU, Washington impunha uma hegemonia solitária sobre o resto do mundo. Num artigo escrito na época, o historiador Paul Kennedy, da Universidade Yale, recapitulava os desafios das superpotências precedentes-da Roma Antiga ao Império Britânico, no século 19- para concluir que nunca existira uma supremacia tão completa como a exercida pelos EUA no começo do século 21. Um termo novo passou a designar esse estatuto inédito: hiperpotência.
Ontem, quando Lula conheceu Obama, o encontro de 2002 com Bush recuou mais no passado: mudou o ocupante da Casa Branca e mudou o mundo. Um termo novo surgiu para definir a atual crise econômica: a "grande recessão".
Afora as incertezas globais, quais são os pontos que aproximam ou separam o Brasil e os Estados Unidos? Na conversa de Obama com Lula havia temas onde existia acordo prévio, como o repúdio ao protecionismo e a luta pela preservação ambiental, tema prioritário na agenda da atual administração americana.
Outros pontos eram controversos, como o etanol. Obama apoia as tarifas sobre a importação de etanol, tendo declarado no Senado, em 2007: "Não faz sentido para nossa segurança nacional e econômica substituir o petróleo importado pelo etanol brasileiro". Contudo, seu ministro da Agricultura, Tom Vilsak, e seu ministro da Energia, Stephen Chu, são contra essa barreira tarifária.
Venezuela e Cuba
Havia ainda na pauta questões delicadas, como as relações entre Washington e Caracas e o fim do embargo comercial a Cuba. A conversa sobre a Venezuela pode ter sido aleatória, dado o lado imprevisível de Hugo Chávez. Ao contrário, a questão cubana poderá ter avançado. De fato, há uma conjuntura favorável, mas faltam intermediários para resolver o contencioso americano com Cuba. Bem mais traumáticas, as relações entre os EUA e o Vietnã foram normalizadas quando John Kerry e John McCain, que lutaram e sofreram no Vietnã, organizaram uma comissão bipartidária no Senado para tratar do assunto. Nada similar existe no caso cubano, e há espaço para a atuação discreta da diplomacia brasileira. Também discretamente, um assunto fora de pauta pode ter sido abordado pelos dois presidentes: Foz do Iguaçu. Na semana passada, um relatório da Rand Corporation afirmou que a pirataria de filmes e DVDs na fronteira comum entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai rende milhões de euros por ano ao Hizbollah, movimento xiita libanês. Cedo ou tarde haverá um arrocho dos países da região no contrabando internacional da tríplice fronteira. Na perspectiva dos próximos encontros, Obama e Lula devem ter preparado a reunião do G-20 em Londres, onde os dois países têm posições comuns em alguns temas.
Outros encontros
Para sair da "grande recessão", Obama pensa que é preciso ampliar os investimentos públicos, criar empregos e socorrer empresas fragilizadas, deixando provisoriamente de lado o problema do déficit público. A União Europeia, principalmente a Alemanha, economia dominante da região, discorda. Nascida e criada na Alemanha Oriental, [a chanceler] Angela Merkel adquiriu alergia ao desequilíbrio orçamentário e às intervenções do poder público na economia, e mais fé na dinâmica do mercado. Obama e Lula, mas também o FMI e os dirigentes da China e do Japão, entre outros, são favoráveis à primeira solução. Note-se que as conversas prosseguirão noutros contextos. Lula estará com Obama em mais duas ou três ocasiões, em abril: na reunião do G-20 em Londres, no dia 2, na Cúpula das Américas em Port of Spain (Trinidad e Tobago), entre 17 e 19, e, possivelmente, no Fórum da Aliança das Civilizações, organizado pela ONU em Istambul [Turquia], em 6 e 7. Muita coisa deverá ser discutida. Os EUA, o Brasil e o planeta atravessam uma crise de grandes proporções cuja saída ainda não apareceu no horizonte. Obama não sabe direito como será o começo de seu governo e Lula não sabe como terminará o dele.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O MISTÉRIO MADOFF


Na Vanity Fair deste mês, um grande artigo (depois de baixado deu 21 páginas na minha impressora) de Mark Seal sobre Madoff. Tenho lido tudo o que vejo sobre o “Bernie”, interessantíssima história de picaretagem globalizada. Mas o artigo de Seal me deixou frustrado. Primeiro, ele não fala dos possíveis cúmplices. Ora, como disseram muitos entendidos, é difícil aceitar que Madoff tenha sido o único autor desta vigarice. Como acreditar que grandes bancos, banqueiros suíços (os mais malandros do mundo), associações caritativas de grandes financistas, e tantos investidores experimentados, pentelhos com suas contas, com seu tempo livre de aposentados para escarafunchar o quadro das bolsas e dos dividendos, e até investigadores da SEC (por mais incompetentes que fossem), tenham caído numa esparrela armada por um só indivíduo, que durou décadas e, no fundo, parecia uma banal corrente, uma pirâmide, dessas que surgem em Lavrinhas e Itumbiara? Em segundo lugar, Seal embarca na vertente psicologizante, mostrando Madoff como um cara dissimulado, malandro, fdp que explorou a boa fé de viúvas desinformadas e a cupidez de ricos que queriam ficar riquíssimos. O New York Times já tinha ido por aí, num artigo que acabava comparando Madoff a um “serial killer”. Menos, menos... De fato, tais interpretações ignoram que Madoff não ficou apenas engabelando palermas e cobiçosos. No coração de Wall Street, ele foi presidente fundador da NASDAQ (Seal nem fala disso) e pioneiro da introdução da informática nos negócios, tendo sido um dos primeiros a perceber nos anos 90 que se poderia, graças a internet, operar 24 horas por dia nas bolsas do planeta. Ou seja, Madoff é um cara competente, cuja atividade trouxe a Wall Street benefícios concretos e não apenas rendimentos virtuais. O fato de ele ser também um grande vigarista torna mais misterioso seu papel na NASDAQ e sua contribuição ao funcionamento do capitalismo financeiro. Qual a estratégia de longo prazo de Madoff sobre a evolução coordenada de Wall Street e dos seus negócios, que ele tão bem conduziu de 1990 a 2008? Talvez ele tenha partido do princípio de que tudo ia dar certo porque a trapaça e a pilhagem são parte integrante do capitalismo financeiro, da mesma forma que consubstanciaram o capitalismo mercantil no passado. Lembro o epigrama de Goethe em Wilhelm Meister: “Krieg, Handel und Piraterie/ Dreieinig sind sie; nicht su trennen” (“A guerra, o comércio e a pirataria formam uma indivisível trindade”), citado por Sombart em Der Bourgeois (aqui em trad. francesa), na altura em que fustiga as companhias comerciais holandesas que saquearam o planeta, e inclusive o Nordeste, no século XVII.
Em todo caso, jornalistas e especialistas americanos estão nos devendo uma explicação mais coerente e mais ampla do caso Madoff, o retrato de uma época.
P.S. - Confirmando a pregnância da fraude no capitalismo financeiro, o Financial Times do dia 20/03, alerta que muitas outras picaretagens do tipo do Madoff estão sendo descobertas nos EUA e que “centenas” delas poderão ainda vir à tona. 
Alguns blogs especializados no caso Madoff:
I'm Bernard Madoff--I'm Telling All. Right Here. Trust Me. - http://bernard-madoff-scam.blogspot.com/
naked capitalism: SEC Skipped Normal Inspection of Madoff Hedge Fund - http://www.nakedcapitalism.com/2008/12/sec-skipped-normal-inspection-of-madoff.html
Madoff Help News & Assistance - http://www.madoff-help.com/
BERNIE MADOFF HOT SAUCE/ INFO. CENTRAL!! - http://texasketchup.blogspot.com/
Bernard Madoff Fraud - http://bernard-madoff-fraud.blogspot.com/

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Todos iguais?

Coisa curiosa no Brasil é a aversão a considerar o embate político sob o prisma de um confronto entre esquerda e direita. Entre uma política propícia aos assalariados e ao serviço público, e uma política favorável aos mais ricos e à pauleira do mercado. Para começar, ninguém, nem o mais pertinaz reacionário, nem um autêntico filhote da ditadura, admite ser de direita. Em seguida, paira um consenso de que a direita e a esquerda são uma coisa só. Deste ponto de vista, os governos de FHC e Lula seriam mesmamente equivalentes (não se entende então porque Serra e Alckmin, candidatos de FHC, perderam por quase 20 milhões de votos as presidencias de 2002 e 2006). Na campanha do plebiscito de 1993 sobre « forma e sistema de governo » (armação constitucional tucana que, com o tempo, parece cada vez mais grotesca: dá para entender que a monarquia tenha sido tomada a sério no Brasil no final do século XX?), um cientista político da USP, defensor do parlamentarismo, pretendia que um dos males do presidencialismo era justamente a despolitização. E apontava as campanhas presidencias americanas como o exemplo supremo da indiferenciação política e de mesmice ideológica.

Pois bem, como observaram muitos analistas, no programa orçamentário apresentado anteontem, Obama demarcou dois campos políticos, duas políticas econômicas, duas políticas fiscais, duas opções sociais:

"[F]or far too long, the resilience, optimism, and industriousness of the American people have been frustrated by irresponsible policy choices in Washington," "Prudent investments in education, clean energy, health care, and infrastructure were sacrificed for huge tax cuts for the wealthy and well-connected. In the face of these trade-offs, Washington has ignored the squeeze on middle-class families that is making it harder for them to get ahead. Our Government has spent taxpayer money without making sure the numbers add up and without making it clear and understandable to the American people where their money was being spent. Tough choices have been avoided, and we have failed to make the wise investments we need to compete in a global, information-age economy....

"This is the legacy that we inherit — a legacy of mismanagement and misplaced priorities, of missed opportunities and of deep, structural problems ignored for too long. It’s a legacy of irresponsibility, and it is our duty to change it."

No New York Times, um longo artigo mostra como a política econômica e social de Obama é radicalmente diferente do governo Bush, e acrescento eu, do governo Bill Clinton. Em Paris, a manchete da edição impressa do Le Monde de hoje (datado de amanhã), é « Obama apresenta um orçamento de esquerda »

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Jacques Callot, “Misérias da guerra – os enforcados” (1633)

Hoje, no programa semanal de Jonathan Mann na CNN (« Political Mann ») falou-se da decisão tomada por Obama de enviar mais 17.000 soldados americanos para o Afeganistão. Intervieram, além de J. Mann, uma correspondente da CNN em Washington e uma especialista do Partido Democrata. Comentou-se que Obama era contra a guerra do Iraque, mas não contra a guerra do Afeganistão, que esta última configura um conflito mais complicado, e coisa e tal.
Nenhum dos três lembrou que a guerra do Afeganistão foi legitimada pelo Conselho de Segurança da ONU e deu lugar à
ISAF, reunindo forças militares da OTAN. Nada a ver com a guerra do Iraque, desencadeada pelos EUA e a Inglaterra, sob pretextos falaciosos (a presença de armas de destruição maciça no Iraque, o envolvimento de Saddam Hussein no 9/11) sem o aval da ONU, e considerada por Koffi Annan, pela França e outros países, como uma guerra ilegal. Num discurso duro, claramente de esquerda, num comício em Chicago em 2/2/2002, Obama falou do erro de lançar uma guerra contra o Iraque sem forte apoio internacional” e concluiu com uma frase forte: “ eu não sou contra todas as guerras, eu sou contra as guerras imbecís”
Mas o debate de hoje na CNN mostrou que o papel da ONU ou o direito internacional são irrelevantes para os jornalistas americanos.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

De uma série de anúncios americanos dos anos 1950 dizendo que fumar era bom para a saúde

Reproduzo abaixo um artigo que publiquei de hoje sobre a ameaça de protecionismo
Folha de São Paulo, domingo, 15 de Fevereiro de 2009

O Globo Quadrado.
Luiz Felipe de Alencastro

Barack Obama, todo mundo sabe, é filho de africano, conviveu com muçulmanos, cresceu na Indonésia e aparece como o mais viajado dos presidentes americanos. Timothy Geithner, seu secretário do Tesouro (ministro da Fazenda), passou parte de sua vida na África e na Ásia, fala mandarim e japonês e trabalhou na diretoria do Fundo Monetário Internacional, pregando aos países em crise, inclusive ao Brasil, as virtudes do livre comércio. Apesar do cosmopolitismo da dupla, coube a Geithner dar voz à primeira advertência protecionista formulada pelo presidente Obama: não podemos aceitar que a China desvalorize o yuan para dopar suas exportações. O aviso soou como um aval às teses de congressistas que propugnam um aumento de tarifas sobre as importações chinesas nos EUA. Por enquanto, Pequim se ateve ao protesto verbal. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, responsabilizou Washington pela crise, apontando "o fiasco da supervisão financeira" exercida pelas autoridades americanas, incluindo Tim Geithner, presidente do Federal Reserve, na unidade de Nova York, nos últimos anos. Pouco depois, o pacote de estímulo à economia da Câmara dos Representantes incorporou cláusulas "buy american" [compre produtos norte-americanos], vetando o uso de aço e ferro estrangeiros nas obras de infraestrutura nos EUA. A iniciativa foi atribuída ao lobby da AFL-CIO, maior organização sindical americana e aliada histórica do Partido Democrata. No Senado, o princípio "buy american" foi praticamente suprimido, graças a vários senadores, entre os quais se destacou John McCain. Para muitos analistas, o presidente Obama hesitou, e uma colunista do "Washington Post" o chamou de "imaturo", fórmula usada para classificar incompetentes que têm menos de 45 anos. Observadores pessimistas viram nesses incidentes a confirmação de uma velha tendência americana: a saída dos republicanos, abertos ao livre comércio, traz de volta o protecionismo à Casa Branca, pela mão dos democratas, mais sensíveis à pressão dos sindicatos. Reservado até agora aos presidentes latino-americanos, o epíteto "populista" foi colado pelos republicanos nas costas de Obama durante a campanha eleitoral e continua pautando comentários sobre sua política assistencialista e seu viés alegadamente protecionista. No outro lado do Atlântico, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, ao anunciar o pacote de 5,5 bilhões em favor da indústria automobilística francesa, exigiu "contrapartidas" para manter os empregos no país. Num ataque à Peugeot, criticou as montadoras francesas que abrem fábricas na República Tcheca para exportar carros para a França. Dias antes, a ministra da Fazenda do país, Christine Lagarde, havia declarado: "O protecionismo pode ser um mal necessário". Depois a ministra se retratou, mas a frase ressoou longe. Procurando acalmar os outros países europeus, o primeiro-ministro, François Fillon, garantiu à Comissão Europeia (órgão diretor da União Europeia) que Paris não faria pressão para as fábricas francesas se reinstalarem na França. Mas a República Tcheca protestou, e espoucaram manifestações em Valladolid, na Espanha, onde há boatos de que a produção da fábrica local da Renault será transferida para a França. Aproveitando a derrapada da França, Alistair Dairling, ministro da Economia britânico, declarou que "é preciso ser muito duro contra o protecionismo", propondo-se a defender essa política na reunião dos ministros de finanças do G7, neste fim de semana em Roma. Apesar dessas proclamações, o Reino Unido também joga suas cartas protecionistas no setor bancário, onde, segundo a "Economist", as manobras para proteger o mercado nacional são mais fortes do que no setor industrial. Nacionalizados pelo governo do primeiro-ministro Gordon Brown, os bancos RBS e Lloyds TSB obedecem a diretivas para aumentar seus empréstimos na Inglaterra, retirando-se, se for preciso, dos mercados estrangeiros. Um aspecto mais maligno do protecionismo surdiu na refinaria de petróleo de Lindsey, no leste do país. Furiosos contra uma empreiteira italiana que -dentro de toda legalidade e de acordo com a legislação europeia- trouxe seus operários especializados italianos e portugueses para ampliar a refinaria, os operários ingleses entraram em greve. No meio da nevasca, dezenas deles desfilaram na frente da refinaria carregando cartazes onde estava escrito: "Emprego britânico para trabalhadores britânicos". Caos bancário, estagnação econômica, tensões sociais, protecionismo, xenofobia. Em escala desigual, estas etapas reproduzem os primeiros desdobramentos da crise de 1929. Mas há ainda uma chance de consertar os estragos: todo mundo sabe que esse encadeamento fatal explodiu numa grande conflagração mundial.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Quem sabe das coisas?

Cúpula latinoamericana de Sauipe

Não vi nenhum jornal brasileiro sequer mencionar o artigo publicado ontem no Wall Street Journal dizendo que o Brasil afirma-se como líder da América Latina, vencendo a parada frente à Venezuela. A respeito do primeiro encontro de cúpula latinoamericano, realizado em Sauipe em dezembro passado, o WSJ diz que o Brasil exerceu uma liderança moderadora, cortando a retórica antiamericana incentivada pela Venezuela. Como se sabe, o WSJ é um jornal conservador que, às vezes, torna-se agressivamente conservador. Nunca poderia ser acusado de lulismo. Não obstante, uma parte importante da mídia brasileira, alimentada pelos artigos e declarações de um quarteto de embaixadores tucanos aposentados, propaga a idéia que a atual orientação do Itamaraty – antes, durante e depois da cúpula de Sauipe - é antiamericana. Condoleezza Rice já havia dito que o Brasil era um aliado leal dos Estados Unidos. Embora reconhecendo que o Brasil não é um « aliado incondicional » dos EUA, pois defende seus proprios interesses economicos e diplomáticos na América Latina, o WSJ reitera a opinião de Condoleezza Rice. Quem conhece melhor os interesses americanos, o quarteto de diplomatas tucanos ou Condoleezza Rice e o WSJ ?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Qual é a graça?

Foto Wilson Junior, Agência Estado
Passei o dia trabalhando no escritório, olhando, sem querer e constrangido, a página do sitio do Estadão com a Sérgio Cabral rindo do dedo vazio da luva de Lula. Quando se vive muito tempo fora do Brasil, há coisas banais do cotidiano dai que provocam um estranhamento com a nossa própria cultura. Na época das presidenciais de 2006, um tribunal eleitoral, muito justamente, vetou a difusão de um cartaz de uns sacanas que usavam um desenho com a mão de Lula mutilada para atacar sua candidatura. Nos anos 70, me contaram a história de uns exilados brasileiros na Suécia que tinham levado um gelo dos companheiros suecos por causa de uma piada besta a respeito de um aleijado na rua (“olha o “deixa-que-eu-chuto”, ou coisa do genero). Lula leva numa boa as piadas sobre seu dedo mutilado. Haverá até quem pense que a atitude do governador do Rio é boa porque tira o eventual constrangimento de Lula. Mas passei esta terça-feira irritado com a vista desta risada meio boçal do governador Sérgio Cabral.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

1808


Reproduzo abaixo um artigo que publiquei na Folha a respeito do bicentenário da chegada da Corte




Folha de S. Paulo, 14 de dezembro de 2008

A terceira margem do Rio


Luiz Felipe de Alencastro

No termo do ano do bicentenário, talvez ainda haja algo para ser dito sobre a chegada da corte. Eventos variados apresentaram as mudanças introduzidas em 1808. Apontou-se o desenvolvimento comercial, a modernização social e institucional, o transplante da burocracia européia que forjou o aparelho estatal da nação, a não-fragmentação da América portuguesa e a singularidade monárquica brasileira no contexto americano. Some-se a isso certa nostalgia da época em que o Rio de Janeiro era a capital política, econômica e cultural do país.
Com exceção deste último aspecto, os temas não foram muito distintos dos que haviam sido destacados cem anos atrás. Como há um século, a comemoração da vinda da corte serviu para apregoar a preeminência do Brasil na história da expansão européia e a excepcionalidade do destino brasileiro. Pouco se falou a respeito da ofensiva inglesa no Atlântico Sul, ilustrada pelos ataques de 1806 e 1807 a Buenos Aires, cujo comércio seria em seguida aberto à Inglaterra. Quase nada foi notado sobre o arrocho de Londres para que a corte viesse para o Brasil comboiada -subjugada pelos canhões da Royal Navy.
No entanto -respondendo à chancelaria britânica, que insistia, ainda em 1838, na generosidade da ajuda naval inglesa em 1808-, Sá da Bandeira, primeiro-ministro português, argumentou que a corte podia muito bem ter se estabelecido na ilha da Madeira, mais próxima de Lisboa e inacessível à Marinha de Guerra francesa (destruída em 1805 na batalha de Trafalgar). Para ele, a vinda da corte para o Rio de Janeiro fora imposta pelos ingleses, sobretudo interessados em ter livre acesso ao mercado da América portuguesa. Nessa perspectiva, o fator decisivo do translado da corte é a pressão inglesa para forçar a abertura do comércio do Brasil. Assim, o plano de mudança da sede do reino, cogitado desde sempre por uma elite portuguesa ansiosa por vir morar em Pindorama -eixo central da historiografia e do comemoracionismo-, se torna aleatório.
Enviesada por uma interpretação territorial da história do Brasil que desconsidera a unidade do Atlântico Sul, boa parte das análises não atinou para o outro evento marcante de 1808: o engolfamento brasileiro nos portos africanos abandonados pelos negreiros da Inglaterra e dos EUA. De fato, concretizou-se nesse mesmo ano a proibição do tráfico de africanos ordenada aos comerciantes dos dois países por seus respectivos governos. Atenta à mudança, a Mesa de Inspeção -órgão regulador do comércio do Rio- anunciou, em agosto de 1808, as grandes oportunidades abertas ao Brasil, "pela falta de concorrentes estrangeiros na costa [da África], sendo a todos vedado este comércio [de escravos]". Na seqüência, as trocas diretas com a Inglaterra estimulam as exportações brasileiras para a Europa, avolumando a importação de africanos. Campeão absoluto do comércio negreiro, já considerado pirataria no século 19, o Brasil captou 1,5 milhão de africanos entre 1808 e 1850. Desses, 760 mil foram ilegalmente introduzidos no país, sobretudo entre 1831 e 1850.
Conforme a legislação brasileira de 1831, todos esses indivíduos eram considerados livres ao pisarem nas praias do império. Sua redução ao cativeiro constituía crime de seqüestro. Porém a esmagadora maioria deles -e de seus filhos e netos- foi mantida na escravidão com a tolerância das autoridades e o conluio da sociedade. Desse modo, as duas últimas gerações de escravos simplesmente não eram escravos. Trata-se de indivíduos plenamente livres e escravizados ao arrepio da lei.
Nesse contexto, a transferência da corte ofereceu duas condições importantes para a sobrevivência do sistema negreiro. Um governo português -e depois brasileiro- obstinado na continuidade do escravismo e um aparato diplomático competente, apto a neutralizar as ofensivas diplomática e naval inglesa, protelando o tráfico de africanos até 1850. A visão irênica da chegada da corte propala a ocidentalização do Brasil pela dinastia dos Bragança que reinava nas duas margens do Atlântico. Mas houve também uma terceira margem no rio-oceano, formando a cadeia de trocas que conectou a barbárie ao progresso econômico: quanto mais cresceu a economia brasileira, mais gente foi arrancada da África e escravizada no Brasil.
O poeta alemão Heinrich Heine escrevia em 1833: "Cada época é uma esfinge que mergulha no abismo logo que o seu problema é decifrado". Terá o Brasil decifrado as conseqüências do problema gerado em 1808?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ontem Obama destoou

Walton Ford, “Falling Bough”, 2002,Watercolor, Cotesia Paul Kasmin Gallery, New York

“Our journey has never been one of shortcuts or settling for less. It has not been the path for the faint-hearted, for those who prefer leisure over work, or seek only the pleasures of riches and fame. Rather, it has been the risk-takers, the doers, the makers of things -- some celebrated, but more often men and women obscure in their labor -- who have carried us up the long, rugged path towards prosperity and freedom. For us, they packed up their few worldly possessions and traveled across oceans in search of a new life. For us, they toiled in sweatshops and settled the West, endured the lash of the whip and plowed the hard earth.For us, they fought and died in places Concord and Gettysburg; Normandy and Khe Sahn”
No meio de carradas de editoriais e análises de jornais citando frases do discurso de posse de Obama, separo do texto da fala, publicado no
New York Times, duas frases do trecho acima que me parecem fundamentais e sobre as quais não li ainda nenhum comentário (mais ainda é cedo nesta madrugada do dia 21).
A primeira frase é a única referência direta à escravidão nos Estados Unidos que aparece no discurso: “For us,... they ... endured the lash of the whip”“Por nós, eles sofreram o flagelo da chibata”. Parece pouco. Sem referência ao arrancamento dos africanos de sua terra e à sua deportação para a América (enquanto a frase anterior fala dos emigrantes pobres que vieram para o país), sem referência à luta dos escravos contra a escravidão. Mas para mim a frase destacou-se instantâneamente do discurso. Talvez porque eu estivesse esperando ouvir algo do gênero, e porque as palavras são fortes: they “endure the lash of the whip”. “The lash of the whip” é quase uma onomatopéia do assobio do açoite cortando o ar antes de cortar o corpo. Dita por aquele homem negro, num momento como aquele, naquele lugar, a frase deve ter ressoado forte na cabeça de muita gente. Reinserida no parágrafo, a frase, no entanto, destoa. “Por nós, eles empacotaram seus poucos pertences e atravessaram oceanos à procura de uma nova vida. Por nós, eles enfrentaram a exploração no trabalho, aguentaram o flagelo da chibata e araram a terra dura”. Ser açoitado toda a vida, junto com seus filhos e netos, depois de ter sido deportado da Africa sem saber para onde, como acontecia com os negros, é bem diferente de pegar no pesado como imigrante europeu, asiatico ou latino-americano recém chegado na América. No fundo, a frase destoa porque a escravidão destoa na escala da história dos Estados Unidos e do Ocidente. Noto também que Obama não mencionou sequer uma vez os índios e os desastres da conquista colonial.
A segunda frase vem logo em seguida e menciona quatro batalhas da história americana: “For us, they fought and died in places Concord and Gettysburg; Normandy and Khe Sahn”.
Concord (1775), perto de Boston, primeira batalha da Revolução Americana, Gettysburg (1863) marcou a virada em favor do exército do Norte na Guerra da Secessão, Normandia (1944), o desembarque dos Aliados na França e Khe Sahn (1968). Khe Sahn? Catso, o que Khe Sahn, uma vitória sem sentido, numa guerra calamitosa como a do Vietnã vem fazer numa lista prestigiosa dessa?
Passada a primeira indignação, me dou conta que Obama enterra de vez o contencioso da guerra do Vietnã (ainda levantado por John Kerry na presidencial de 2004) e da minha geração. Encadeada nas grandes batalhas da história americana, Khe Sahn deixa de ser um disparate, deixa de ser o desastre que foi, e dissolve-se como um lugar distante onde morreram soldados americanos. Só isso. Eleito por muitos americanos esperançosos de que ele saia logo do Iraque, outro disparate, outro desastre, Obama jogou o Vietnã para trás dos armários do porão da história americana. Ele provavelmente está certo e talvez este elogio à guerra furada que terminou em retirada no Vietnã seja uma maneira de encaminhar a retirada do Iraque. Mas minha geração, meus amigos americanos que viveram o drama ou que fugiram para a França para não serem mandados para o Vietnã, devem estar se sentindo, como eu me sinto agora, meio esquisito. Obama destoou da gente. Ele pode ter razão. Pero nosostros también!
P. S. – O artigo de hoje, sexta, de Paul Krugman no NYT critica as »platitudes » que Obama disse sobre a crise economica no seu discurso de posse. Para ele, Obama também destoou, também ficou aquém do que se esperava.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A Respeito dos 40 anos do AI-5


Vou voltando devagarinho ao blog. Agora, com este texto sobre a ditadura, publicado no começo da campanha das presidenciais de 1994. Mudou alguma coisa, mas a análise sobre o golpe de 64 e o AI-5 de 1968 pode completar outros artigos publicados neste fim de semana no Brasil sobre os 40 anos do AI-5.


1964: POR QUEM DOBRAM OS SINOS?


Folha de S. Paulo 16/05/1994


Luiz Felipe de Alencastro


Um equívoco se introduziu no balanço geralmente estabelecido a respeito do golpe de 1964. Quando aparece gente –tão rara quanto os micos-leões– lembrando as atrocidades cometidas pela ditadura, surge um mal-estar que toca até democratas tarimbados. Quase sempre, os rememoracionistas são informados que a transição não incorporou este tipo de cobrança, que os responsáveis pelo regime militar são hoje autênticos liberais. Como sói acontecer entre nós, estes eventos dramáticos teriam perdido seu nexo histórico. Não aviltam, nem preocupam mais a nação. Se transformaram apenas em culto doméstico das famílias das vítimas. Quem quiser tratar do assunto que o faça literariamente. Que escreva um desses romances de formação, meio autobiográficos. E estamos conversados. Ainda assim, com recursos de escrevinhador e assumindo o risco de ser inconveniente, é possível insistir. Para além do revanchismo, deve haver espaço para uma análise das consequências atuais da tirania que se abateu sobre o país 30 anos atrás. Paradoxalmente, o golpe de 1964 trouxe no bojo um elemento revolucionário: rompeu as cadeias de solidariedade de classe, de estatuto, de educação, de profissão tecidas entre as camadas privilegiadas. Durante um século e meio estas cadeias de solidariedade pairavam acima dos conflitos que atravessavam a nação. Decerto, foram sangrentos os choques interoligárquicos pelo controle dos Estados. Na ditadura varguista surgiu um patamar mais avançado no processo repressivo. Porém, predominavam as operações de polícia, sem envolvimento direto do Exército. Operações que não chegavam a se generalizar. Alguns interventores protegeram parte da esquerda. Impediram que os setores dissidentes da oligarquia fossem alcançados pela polícia do Estado Novo.1964 quebra o ascenso da esquerda, mas também esfrangalha a conciliação das elites. Não foi um processo simples. Foi preciso primeiro –novidade– que a ditadura internacionalizasse os conflitos brasileiros. Para isso contou com as mudanças da conjuntura mundial. Havana empurrava a América Latina para a Guerra Fria. Washington alterava suas alianças no Terceiro Mundo. Aqui e alhures a direita tradicional era ultrapassada por eventos que escapavam às relações de forças internas. Perpetrado o golpe, o guerrilheirismo ganha espaço à esquerda, trazendo água para o moinho dos autoritários. De fora e de dentro, intervinham fatores ou extremavam as análises. Existia, é claro, a aposta militarista cubana, fornecendo aberrante apoio à luta armada. Mas o radicalismo de esquerda se alimentava ainda dos interditos internos –censura de imprensa, prisões, cassações, fraudes– impostos à constituição de uma frente eleitoral contrária ao regime militar.Não estava inscrito no mapa astral brasileiro que os acontecimentos devessem tomar este rumo sinistro. A resposta inicial dos Estados Unidos às teses castristas sobre a América Latina fora uma proposta de reformas sociais, a "Aliança para o Progresso". Algo similar ("A Operação Pan-Americana") tinha sido formulado por Juscelino. Havia campo para uma aliança reformista de contenção ao castrismo. Por razões difíceis de resumir, entre as quais pesou o extremismo dos neoconservadores brasileiros, emplacou a aliança autoritária.


A primeira vítima importante da radicalização foi, justamente, Juscelino. De começo, JK se acumpliciou à ruptura constitucional. Acreditou nos dirigentes que lhe garantiam ser o golpe uma ação preventiva para firmar as presidenciais de 1965. Falhou a tal perspicácia mineira e o Brasil amargou o resto. Como não ver, retrospectivamente, que Jango constituía apenas o alvo inicial –mas secundário–, dos golpistas? Como esquecer a artilharia montada para atingir JK, o alvo principal? Na altura, a direita autoritária já tinha rifado a direita moderada. Indo em frente, extinguiu os partidos políticos, derrubou JK, candidato imbatível nas eleições previstas para 1965. Saltando para fora dos parâmetros conservadores, o "putsch" virou ditadura.Texto meditado, o AI-5 se apresenta, por si só, como um desmentido às interpretações visando a descarregar a responsabilidade pelos "excessos" do regime nas costas de subalternos. Veio do vértice do Estado –de uma reunião solene do Conselho de Segurança Nacional composto pelos principais ministros e pela hierarquia militar– a cobertura política e legal para afrontar as liberdades públicas, os direitos individuais. Da mesma forma, não se deve atribuir a concepção do AI-5 a alguns coronéis nordestinos e a outros tantos coronéis do Exército. Veio do centro-sul economicamente avançado o estímulo e a sustentação à deriva autoritária. Dois membros do "establishment" paulista, dois civis, catedráticos da USP, tiveram um papel crucial na implementação do texto mais celerado da história brasileira: o ex-reitor Gama e Silva, ministro de Justiça, que açulou a crise e urdiu o conteúdo do Ato Institucional, e Delfim Netto, ministro da Fazenda. Foi o sr. Delfim Netto que trouxe a um Costa e Silva ainda hesitante a garantia de que o AI-5 não encontraria oposição entre o empresariado, "podendo ser o Ato editado tranquilamente" (testemunho do general Portella, citado por Zuenir Ventura). Com sua habitual lucidez, o então ministro da Fazenda fez juízo certo. Comprometidos pelas benesses estatais e a pusilanimidade cívica –fatores característicos de nosso capitalismo postiço– as organizações patronais aprovaram a guinada autoritária.


O AI-5 derruba o padrão político evolutivo plantado desde a independência pelos herdeiros do despotismo ilustrado pombalino. Este padrão pressupunha um espraiamento progressivo das liberdades reservadas à burocracia do Império e às oligarquias. Instituições embrionariamente democráticas iriam ampliando seu escopo, à medida que a população fosse "civilizada" pelas elites. Doravante, a regra não tinha mais validade. A "evolução civilizadora" foi rompida por elites que enveredavam pela barbárie.Medrou então um mostrengo nunca visto nas paragens. Uma direita capaz de atropelar as oligarquias, centralizar o poder, comprometer as Forças Armadas. Um regime apto, enfim, a nacionalizar a repressão. Status, galões, apadrinhamentos, tudo ia para espaço quando a "subversão" entrava em linha de conta. Tal é o cerne do problema histórico que se criou. Sem medo de ser feliz, uma parte substancial das elites decidiu bancar a ditadura. Como fica tudo isso hoje, às vésperas de uma difícil eleição presidencial? Embora a prática constitucional tenha ascendido a um nível inédito, não se pode dizer que os neoconservadores estejam definitivamente comprometidos com o jogo democrático. Impossível dissimular: o assalto de Fernando Collor e seus bandoleiros aos cofres públicos –ousada operação de pirataria montada para destruir nosso país– viabilizou-se por causa do apoio que os partidos conservadores, o patronato, a Rede Globo proporcionaram ao grotesco "caçador de marajás". Do lado oposto, a candidatura de Lula, portadora de um programa de reformas, deflagra de novo a paranóia neoconservadora. Parte da direção petista aumenta a tensão ao propugnar a vitória no primeiro turno. Desconsiderar as alianças políticas em favor da aritmética eleitoral constitui, de fato, um erro grosseiro. Matematicamente concebível, eleitoralmente possível, a vitória de Lula no primeiro turno seria politicamente desastrosa. Dispensado de debater a fundo seu programa, seu ministério, desprovido de alianças de centro no Congresso e nos Estados, o governo do PT –alçado pela primeira vez à administração extramunicipal– estaria entregue à sua própria sorte. Todas as condições se alinhariam para tornar o governo federal refém do presidencialismo mais primitivo, mais vulnerável ao golpe.Desde logo, parece legítimo formular algumas questões. Existe, nos círculos do poder, a percepção de que a guerrilha dos anos 1970 acabou de vez, não pelo terror da Oban e dos DOI-Codi, mas por causa da revolução eleitoral desencadeada em 1974 pela acachapante vitória do MDB de Ulysses Guimarães? Está bem aceite que foi esta mesma vitória levou a ditadura à breca? Sem a carga negativa irradiada do pólo externo sovieto-cubano o pólo interno da direita autoritária definhará? A sociedade civil impediria hoje um ministro da Fazenda de garantir a um eventual ditador que um texto como o AI-5 poderia ser "tranquilamente editado"? Pode ser que sim. Na circunstância, a memória dos "desaparecidos" ficaria de fato circunscrita ao luto mal resolvido dos sobreviventes.Outra hipótese merece entretanto ser considerada. Talvez o mostrengo ainda se remexa. Talvez, a direita nacional –sempre ruim de voto– estiolasse suas redes eleitorais no vaivém entre o autoritarismo e os candidatos aventureiros, tipo Jânio e Collor. Talvez, ao declarar que haverá golpe se Lula vencer, o sr. Antonio Carlos Magalhães não esteja blefando. Nesse caso, a memória dos desaparecidos extravasa o culto familiar, avilta a nação, ganha lancinante atualidade. Nesse caso, os sinos não dobram apenas pelos corpos sem nome amortalhados nas águas da Guanabara, nas ribanceiras do Araguaia, nos sítios de tortura. Dobram também por nós, pobres coitados, cidadãos de um país onde a democracia é contingente, os direitos civis transitórios. Onde o passado não passa.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Onde fica Israel?

Lula viaja mundo afora, visita países, conversa com chefes de Estado. E Lula tem razão. O Brasil tem tamanho, é um país pacífico, com potencial geopolítico e uma população vinda do mundo inteiro. Deve estar presente nos lugares em que se decidem as grandes questões. Assisti em Paris, em abril de 1976, a passagem do presidente-ditador Geisel, sob protestos que mobilizaram não só a esquerda e os republicanos de todas as tendências, como também os bispos franceses. Apoiei essas reações e também fui para a rua vaiar o ditador. Fico agora contente de ter visto presidentes como FHC e Lula serem bem recebidos e respeitados em toda parte. Nas Américas, na Ásia, na África, no Oriente Médio.
Mas Lula deve ir também a Israel. Trata-se da algo fundamental para consolidar a respeitabilidade da diplomacia brasileira e confirmar a pluralidade de nossa cultura.
Quando aconteceu em Brasília, em maio de 2005, o encontro entre os países árabes e os países sul-americanos, iniciativa judiciosa e importante, mas criticada pela maioria dos jornalistas brasileiros -, com a honrosa exceção de Jânio de Freitas e Eliane Catanhêde -, o ministro Celso Amorim afirmou que estava planejada uma visita de Lula a Israel. Passados três anos, o chanceler
esteve em Tel Aviv, em fevereiro deste ano, com o primeiro-ministro Ehud Olmert. Disse, segundo a BBC, “que existe a possibilidade de uma visita do presidente Lula a Israel”.
Quer dizer então que existe igualmente a possibilidade de Lula completar dois mandatos, dar várias vezes a volta ao planeta em viagens oficiais, e não parar nunca em Israel?

sábado, 19 de abril de 2008

Déjà vu


Outro dia foi anunciada uma grande 'descoberta' feita por pesquisadores do Center for Economic Policy Research (CEPR), de Londres: veiculando um padrão de família com poucos filhos, as novelas da Globo tiveram impacto na forte queda da taxa de fecundidade constatada no Brasil nas últimas décadas. Anunciada pela BBC, a notícia repercutiu pelo mundo afora, no Globo, na Folhaonline, no SkyNews, no New York Daily News e nas agências de notícias.

Embora ainda fosse madrugada por aqui, a leitura da « novidade » me deixou embatucado. Explico: desde o final dos anos 1980 e nos anos 1990 participei de seminários e debates no Cebrap em que Vilmar Faria -, autor do primeiro estudo sobre o assunto em 1989 -, e Elza Berquó, grande demógrafa e fundadora do Cebrap, discutiam e organizavam pesquisas sobre o tema. Joseph Potter, da Universidade do Texas, juntou-se às pesquisas iniciadas por Vilmar e em 1998 os dois publicaram um artigo intitulado : “Television, Telenovelas, and Fertility Change in North-East Brazil”,(in Richard Leete (ed.), Dynamics of Values in Fertility Change, Oxford: Oxford University Press, 1998). O ensaio teve impacto imediato e -, coisa muito rara -, foi citado num editorial do The New York Times, em junho de 1998. O texto foi depois publicado na revista do Cebrap em março de 2002. A tése dos autores, fundamentada em pesquisas, era basicamente a mesma que está sendo 'descoberta' 10 anos depois.

Os autores do estudo do CEPR citam 3 vezes (no estudo, não nas entrevistas aqui citadas) o ensaio de Vilmar e Potter. Mas, francamente, não avançam muito além das análises publicadas pelos dois. Acho até que as conclusões de Vilmar e Potter são mais complexas e sofisticadas que as do CEPR. Quem quiser, pode conferir. Mais ainda, o estudo do CEPR (feito por La Ferrara, Chong e Duryea) aparentemente ignora o grande estudo orientado por Vilmar, Potter e Elza, entre 1992 e 2000, cujo resumo transcrevo: “O projeto 'O Impacto Social da Televisão no Comportamento Reprodutivo no Brasil' é um projeto multi-disciplinar e multi-institucional que envolve, além do CEDEPLAR/UFMG, o NEPO/UNICAMP, o CEBRAP, a ECA/USP, além da University of Texas at Austin e Santa Clara University. O objetivo do projeto é mostrar como a televisão teve impacto nas mudanças reprodutivas observadas no Brasil recentemente, incluindo a queda da fecundidade propriamente dita e as mudanças ideacionais (ideational changes) com relação à reprodução, sexualidade e uso de contraceptivos. O argumento, inicialmente proposto por Faria (1989), é de que a política governamental de incentivo à expansão dos meios de comunicação de massa, aliada à ampliação do crédito ao consumidor e à medicalização, geraram efeitos não intencionais e não esperados sobre a fecundidade e as práticas contraceptivas. O projeto teve início em fevereiro de 1992 com um workshop em Austin, Texas. ... A pesquisa de campo propriamente dita foi feita entre junho de 1996 e fevereiro de 1997, enquanto a novela das 8 da Rede Globo O Rei do Gado esteve no ar. ».

Este projetaço, discutido em universidades americanas e brasileiras, teve trabalho de campo e pesquisas derivadas publicadas dentro e fora do país. A melhor prova que a pesquisa do CEPR não « descobriu » nada de tão novo assim, pode ser verificada nos resumos das duas pesquisas, publicados na mídia novaiorquina com dez anos de intervalo.

Em 1998, o editorial do New York Times dizia: “Vilmar Faria, a Brazilian sociologist, and Joseph Potter, a University of Texas sociologist, argue that the drop in fertility tracks the spread of television -- dominated by the universally popular nightly soap operas known as telenovelas. For many poor, the telenovelas provided their first glimpse of small, less authoritarian families and of consumer culture. Women realized they could choose fewer children, and that children had a cost ».

Há três dias, o New York Daily News, jornal de 2a. divisão de Nova York, afirmou, num tom mais vulgar, no meio do noticiário geral: Soap operas are contributing to a population decline in Brazil, according to a new study - and not just because people are too busy watching TV to get busy in the bedroom. A study by the Center for Economic Policy Research (CEPR) says that Brazil's national addiction to soap operas is to blame for a drastic decline in fertility rates there over the past four decades. The small families depicted on the soaps, the study says, are causing real women to want fewer children of their own.

Dez anos atrás, trouxe de NY para Vilmar o exemplar do NYT com a primeira citação. Ele ficou feliz. Agora, ponho as duas citações lado a lado neste post. Espero que ele também tenha ficado contente, lá onde se encontra.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Conferência conclusa

Outra mesa: Daniel Aarão Reis, Paulo Paranaguà, Kelly Araùjo, Anaïs Fléchet, Hervé Théry


O colóquio sobre o Brasil e o Atlântico Sul foi, creio eu, bastante bom, graças à colaboração de alto nível dos colegas e da presença atenta dos pesquisadores e estudantes.
Ficou faltando alguém da África do Sul (mas haverá um especialista com um capítulo sobre o país nas Atas que serão publicadas) e mais gente sobre a Argentina (idem ). No final das contas, o balanço só aparecerá daqui dois ou três anos: quando tiver saído o volume com as conferências e, sobretudo, quando um colóquio peso pesado na Inglaterra ou nos EUA retomar a temática, mostrando que o Atlântico Sul é uma área histórica e cultural com sua própria especificidade. Se isso não acontecer, a coisa toda continuará mal parada.
A foto acima, no anfiteatro Liard, na Sorbonne, registra o final da primeira sessão da tarde da sexta-feira dia 11. Beatriz Mamigonian (Universidade Federal de SC - Yale) pega o material dela; atrás, o vulto do embaixador Alain Rouquié (presidente da sessão);do lado direito, com uma gravata vermelha, Michael Zeuske, da Universidade de Colônia (Alemanha); ao lado dele Júnia Furtado (Federal de MG); no primeiro plano à direita, Nuno Monteiro da Universidade de Lisboa; na frente da mesa, com os papéis na mão, Joseph Miller, da Universidade de Virginia; ao lado dele, de costas, vosso criado; depois à esquerda, Katia Mattoso ajustando os óculos, Ernestina Carreira (Universidade de Provence) e Serge Gruzinski (École de Hautes Études e CNRS); (e tem gente que diz que ponto-e-vírgula não serve para nada!). No fundo, o quadro de
Richelieu, reitor e reformador da Sorbonne, por Philippe de Champaigne. A foto, de que gostei porque o mostra o movimento das sessões e porque ninguém faz pose, é de José Manuel Santos Pérez, da Universidade de Salamanca.


quarta-feira, 2 de abril de 2008

Por uma História do Atlântico Sul

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Dias 10 e 11 de abril organizo este colóquio anunciado acima, cuja idéia se articula em torno de três pontos :
1.O Atlântico Sul tem uma história distinta do Atlântico Norte. A esmagadora maioria dos estudos que se referem genéricamente ao Atlântico falam, na realidade, Atlântico Norte e omitem as particularidades do Atlântico Sul: tráfico negreiro bilateral (e não triangular), envolvimento dos colonos escravistas da América portuguesa na África portuguesa, etc.
2. O Atlântico Sul tem um passado, um presente e um futuro. As novas nações lusófonas da África, principalmente Angola, retomam o intercâmbio direto com o Brasil, a Argentina também desenvolve suas relações com a África. A parceria diplomática entre o Brasil e a África do Sul tem hoje em dia um peso importante.
3. O estudo da História do Brasil na vertente de uma história global do Atlântico Sul permite renovar uma historiografia brasileira que patina em interpretações excessivamente territoriais ou que continua enquadrando-se no conceito meio obsoleto de América Latina

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Rede e o Nada

Capa da edição de 1883 de Les Travailleurs de la Mer, de Victor Hugo
Paulo Henrique Amorim é meu amigo há muito tempo. Mas não é por isso que escrevo aqui. Penso, de fato, que a ruptura de seu contrato no Ig é exemplar para demonstrar como a rede também pode abrir a via à regressão política e cultural. Visivelmente, os posts e as entrevistas que Paulo Henrique Amorim fazia não agradavam gente muito poderosa. Por esta ou por outra razão que o Ig não se dignou a explicar aos internautas, aos colaboradores do seu portal e ao público (o argumento dado: a falta de rentabilidade do site de PHA é grotesco: os outros sites que ficaram têm mais internautas-leitores do que o dele???), seu sítio foi bruscamente tirado do ar.
A maior parte de seus posts e de suas entrevistas com líderes políticos, altos funcionários e personalidades diversas foram seqüestradas e podem ser destruídas pelo Ig. Este é o problema de fundo: os posts e os sítios podem desaparecer definitivamente. Noutro registro, o triste fechamento do Nomínimo, do qual fui colaborador, como do No antes dele, acabou fazendo desaparecer todo o rico material jornalístico que ele continha. No que me concerne perdi para sempre os meus textos, embora eles tivessem continuado a ser acessíveis muito tempo depois do fechamento do Nominino. Causado, como se sabe, pela falta de fontes de publicidade que torna vulnerável o jornalismo eletrônico no Brasil.
O caso de PHA é muitíssimo mais grave e constitui um verdadeiro atentado à liberdade de imprensa e à propriedade intelectuel. PHA não teve a oportunidade de redirecionar seus leitores e os internautas para o seu
novo sítio, nem de recuperar seu trabalho jornalístico. No século passado e retrasado, quando os autoritários e os truculentos mandavam empastelar as redações dos jornais que não lhes convinham, ainda dava para recuperar os exemplares antigos e reimprimir a publicação. Como sabem os pesquisadores e os historiadores, mesmo o regime mais ditatorial ou o país mais desleixado não consegue fazer desaparecer os jornais antigos. Estes acabam sendo preservados, na pior das hipóteses, na documentação consular e nas bibliotecas de outros países. Agora some tudo num piscar de olhos. Que PHA tenha podido recuperar parte de seu acervo para abrir logo um outro sítio (antes os empastaledos também podiam reabrir outro jornal) não diminui em nada a malignidade do ato de que ele foi vítima.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Buenos Aires?


Chega hoje no Brasil, para uma visita oficial de dois dias, Condoleezza Rice. Vai à Brasília encontrar Lula, conversar sobre etanol, Oriente Médio, Chávez, Uribe y otras cositas más. Depois vai para a Bahia, cada vez mais legitimada como capital da Afro-América. Eliane Catanhêde que, junto com Jânio de Freitas, foi a única jornalista a salientar a importância do encontro Países Árabes-América do Sul organizado em Brasília em 2005 (e escarnecido pelo restante da mídia), faz um comentário bem centrado sobre a viagem de Rice. Mas, salvo engano, não há nenhuma notícia nos jornais brasileiros sobre um ponto essencial, analisado pelo New York Times: Condoleezza renova o gelo que os EUA davam na Argentina de Nestor Kirchner, evitando encontrar-se com Cristina Kirchner, eleita há pouco tempo. Ela irá ainda ao Chile, mas não passa por Buenos Aires. !Assim reiterada, a crise entre Washington e Buenos Aires assume proporções inéditas nas relações entre os dois países. Fato que dá outro destaque à situação diplomática do Brasil. Ao não dar por isso, o jornalismo brasileiro consolida o analfabetismo sobre assuntos internacionais existente na opinião pública nacional. Quase todas as matérias importantes sobre política internacional publicadas na imprensa brasileira são traduzidas dos jornais americanos e europeus. E podem ser lidas na véspera nos próprios sítios destes mesmos jornais pelos leitores brasileiros mais curiosos.

domingo, 9 de março de 2008

A crise das Farc: making of de um artigo

Crianças colombianas mobilizadas na 'Guerra de los mil dias" (1899-1902)
O Estadão me convidou no começo da semana para escrever, para o caderno dominical Aliás, um artigo sobre as Farc e as tensões regionais geradas pelo ataque colombiano em solo equatoriano. Como a crise evoluía muito rapidamente, passei a semana coletando material. Mas só comecei a redigir o texto na sexta-feira de manhã (o deadline do jornal era às 18 horas, horário brasileiro): esperava não ser surpreendido por nenhuma novidade que desmontasse os argumentos desenvolvidos no texto.
Zapeando no meio da semana, vi na TV a cena em que Chávez decretava a mobilização de suas tropas. De camisa vermelha, falando no meio da multidão para um ministro da guerra parecido com aquele gordinho de óculos do programa Chaves, da SBT, Chávez, o outro, ordenava com voz tonitruante:“que se mande diez regimientos, que se despliegue la aviación militar!”. Entre um pistache e outro, pensei: «ou o cara ficou doido ou está brincando». Doido, Chávez não é: nunca interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Por isso, comecei a redigir o artigo num enfoque de longo prazo que excluía a iminência de um conflito armado envolvendo a Colômbia, a Venezuela e o Equador. O fato de que Chávez, Uribe e Correa não tivessem desmarcado sua presença na reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, confirmava esta impressão. Mas o tom de muitos sítios de informação era:«There will be blood!». No final do dia, sexta-feira à noite, veio a notícia e as imagens: Chavez, Uribe e Correa estavam se abraçando em Santo Domingo. Tant mieux! Mas a imprensa brasileira traz hoje artigos que começaram a ser impressos antes do final da crise, imaginando que a guerra iria rebentar de uma hora para outra. Veja-se a capa da
Veja.
A certa altura escrevi que a guerra com as Farc é o conflito mais antigo do mundo. O raciocínio teria ficado mais completo se tivesse inserido a frase que agora vai em itálico (incluo também a referência do estudo em que me baseio):
«Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria destas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos inter-étnicos oriundos de partições territoriais estabelecidas após 1945 (Palestina, Território Karen na Mianmar-Birmânia, Cachemira na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, cujos combates começaram em 1966, configura o mais antigo dos conflitos mundiais
[1].Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo ». O artigo completo está aqui.

[1]. Mikael Eriksson e Peter Wallensteen, « Armed Conflict 1989-2003 », Journal of Peace Research, v. 41 (5), 2004, pp. 625-636.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Sumário do livro


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O padre Antônio Vieira, Maurício de Nassau e o tráfico negreiro

Comemora-se neste ano o 4° centenário do nascimento do padre Antônio Vieira. Perspicaz conselheiro régio, brilhante escritor, orador sacro e visionário, Vieira era também um homem realista sobre as coisas deste baixo mundo. Grande patriota português (curioso que haja gente insistindo em considerá-lo « brasileiro », coisa que não existia na época), Vieira propôs a venda de Pernambuco e Angola aos holandeses nos anos 1640, para fazer as pazes com a Holanda e concentrar o esforço militar português na guerra fronteiriça contra a Espanha. Entre outras coisas, Vieira foi também um constante defensor do tráfico negreiro para o Brasil. Aliás, no meu entender, ele é o autor da mais audaciosa justificação do tráfico negreiro do período colonial.
Em 2004, comemorou-se em Siegen, na Alemanha, o nascimento de Johann Moritz von Nassau-Siegen, mais conhecido em Recife e Luanda como Maurício de Nassau.
Ao seu turno, Nassau é glorificado no Brasil e na Europa pelo seu espírito ilustrado. Mas costuma passar-se sob silêncio que ele também foi um defensor obstinado do tráfico negreiro e um dos principais responsáveis pelo envolvimento dos holandeses no comércio de africanos. Falei sobre isto no colóquio organizado em Siegen (terra natal de Nassau e cidade onde ele está sepultado). Saiu agora o livro coletivo, organizado pelos professores Gerhard Brunn e Cornelius Neutsch, "
Sein Feld war die Welt -Johann Moritz von Nassau-Siegen 1604-1679", com as atas do colóquio. Num dos capítulos falo sobre Nassau e o trato negreiro.
Já escrevi bastante sobre isso em vários lugares.
Aqui mesmo e, mais detalhadamente, no meu livro O Trato dos Viventes.
O padre Antônio Vieira e Maurício de Nassau foram, sem dúvida, dois dos homens mais ilustres que viveram no Brasil colonial. O verdadeiro desafio para o historiador consiste em explicar as razões que os levaram a entrar de cabeça no comércio de escravos. A facilidade intelectual, consiste em pretender que esse assunto não existe ou é de somenos importância. É isso que fazem muitos professores de história do Brasil, de Portugal e da Holanda. É o que faz João Lúcio de Azevedo na biografia do padre Vieira que está sendo reeditada no Brasil. Quem quiser conhecer uma abordagem lúcida sobre o assunto deve ler a biografia de Vieira escrita no século XIX pelo maranhense João Francisco Lisboa, também reeditada no Brasil recentemente.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Blogs e Fortuno Sorano encarando a morte


Fui entrevistado ainda há pouco na rádio CBN, de São Paulo, pela jornalista Fabíola Cidral, que nos domingos faz comentários sobre blogs. Esqueci de dizer algo que indico aqui. Na New York Review of Books desta semana há um artigo bem interessante de Sarah Boxer sobre alguns livros que comentam blogs.
Não tem nada a ver, mas uso como ilustração uma foto anônima que estava catando há tempos e achei ontem. Trata-se da imagem, datada de 1911, de Fortuno Sorano, companheiro de Emiliano Zapata e Pancho Villa durante a Revolução mexicana, diante do pelotão de execução. Cartier-Bresson achava que esta era a « foto do século ».
Não encontrei nada sobre o personagem ou as circunstâncias em que a foto foi feita. Olhando devagar, dá para presumir o que podia estar rolando.
Fortuno está com a camisa meio enfiada na calça. Pode ter sido preso (quanto tempo?) e empurrado, o joelho direito está meio esbranquecido. Estava atirando de cima de um telhado ou bebendo na mesa de um botequim quando o renderam?
Em todo o caso, ele se arrumou um pouco, enfiou a camisa na calça e aprumou o pé direito numa pedra, esperando o tranco dos tiros. Os dentes trincam o charuto com força para escorar os balaços. Seu chapéu está bem posto. Seus sapatos tem a poeira das ruas. Quem está na frente dele, além dos que vão matá-lo? Fortuno conhecia alguém do pelotão ? Há mais gente um pouco atras ? choravam ou curtiam ? era a cidade dele ou uma terra longe do lugar onde nascera, onde ninguém o conhecia nem se preocupava se ele ia ter um enterro ou ser jogado num buraco onde já havia outros corpos ?
Fortuno espera o impacto e calcula o tempo de dores que terá antes de desvanecer e morrer. A parede atrás, feita de tijolo e estuco não parece ser um « paredón » usado noutros fuzilamentos. Mas o contorno furado dos tijolos (o recorte é muito regular para ser pedra) cria um pano de fundo que dá mais dramaticidade à roupa preta que ele porta com uma elegância armânica. A camisa bem branca faz tom sobre tom com a tinta branca jogada na parede. Fortuno meteu a mão no bolso sem segurar latinamente o saco. Fortuno vive para sempre neste último minuto de vida.
Fica no entanto uma dúvida. E se Fortuno tiver sido um matador ? um destes indivíduos embrutecidos pela violência e as represálias que ensagüentam as guerras civis? De que serviria então ele ter tido pose na hora morte ? Cartier-Bresson, um grande homem, sabia mais coisas sobre Fortuno que o faziam ter tão grande apreço pela foto ?

P.S. – É para isso que serve um blog Fabíola : para escrever umas linhas sobre Fortuno Sorano, que virou pó há muito tempo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

As línguas africanas e a língua do Brasil

Torre de Babel, Pieter Brueghel, o Velho, 1563, Kunsthistorisches Museum, Viena

O texto abaixo é parte de uma palestra que fiz na Unicamp em 2006, no colóquio “Caminhos da Língua Portuguesa: África-Brasil”, cujas atas serão publicadas em breve. Aproveito para indicar o excelente sítio de Fátima Kandenge, agora Katulembe, que inclui textos muito interessantes, um dicionário de quicongo e outro de quimbundo.
"Tenho sempre optado por guardar a forma lusitanizada de muitos nomes e topônimos africanos. Como se sabe, o português era língua franca em boa parte da costa ocidental e oriental africana e língua veicular interétnica no reino Congo, e obviamente em Angola, onde era utilizada em todos os documentos oficiais e comerciais.
Assim, ao contrário da maioria dos historiadores e antropólogos, escrevo Congo e não « Kongo ». O motivo é simples : os soberanos congoleses, na sua correspondência com Roma e com as autoridades portuguesas, holandesas, etc., assinavam-se sempre “rey do Congo”. O argumento segundo o qual “Kongo” caracterizaria o antigo reino congolês, distinto dos dois países que hoje têm o nome Congo, não é pertinente : o antigo reino da Dinamarca também não coïncide com as fronteiras da atual Dinamarca e nem por isso se alterou a grafia do país. Na mesma ordem de idéias, escrevo quicongo e não kicongo, Dongo e não Ndongo, Ambuíla e não Mbwila, ambundo e não Mbumdu, e assim por diante. Deste modo, com referência ao som nasal em quimbundo, representado pelo « M » ou « N » antes das consoantes (mbundu, Ndongo), sigo a forma tradicional que às vezes anexa o genitivo « a » (de, da, dos, das) ao nome (ambundo) e outra vez suprime a nasalização da consoante (Dongo).
O uso de formas alegadamente mais próximas da pronúncia nativa, em geral originárias da fonética inglesa (Kwanza ao invés de Cuanza), oferece no mais das vezes uma ilusão de autenticidade. Por que cargas d’água os angolanos, os brasileiros, os portugueses, os moçambicanos – todos os autores lusófonos – podem achar que escrever rainha Nzinga é mais autêntico, quando a rainha ela própria, alfabetizada em português, assinava seu nome como Jinga ? No que me concerne, deixo de lado a transitoriedade do politicamente correto e, fiel à assinatura da rainha de Matamba, continuo a escrever Jinga.
É bem verdade que, a partir de 1987, passaram a vigorar em Angola os alfabetos criados para seis dos vinte idiomas que possuem estatuto de línguas nacionais no país : quicongo (kikongo), quimbundo (kimbundu), chocué (cokwe), umbundo (mbundu), bunda (mbunda) e cuanhama (ocikwanyama). Elaborados por especialistas angolanos e peritos em linguística da UNESCO, estes alfabetos fixaram, em muitos casos, a ortografia que estou criticando. Porém, as incongruências persistem. Continua-se a escrever rio « Cuanza », mas a moeda nacional passou a ter a ortografia « kwanza ». E no final das contas, não se mudou o nome oficial do país de Angola para Ngola. Como se sabe, Ngola era o nome dos reis do Dongo, senhores da região de Luanda na época da conquista portuguesa. Na seqüência, a área começou a ser chamada de terra do Ngola. Daí o aportuguesamento em “Angola”.
Em geral, conserva-se o nome tradicional do país. « Japão » é um transcrição inexata, feita pelas jesuítas portugueses no século XVI, dos caracteres japoneses indicando o nome do país Nippon koku. Uma lei japonesa determinou, em 1934, que o nome oficial do país era Nippon. No entanto, fala-se de cultura « nipônica », mas o país continua sendo chamado de Japão. Algo similar ocorre agora com a Belarus -, nome oficial do país desde 1990 -, referido no resto do mundo pelo seu nome tradicional: Bielorússia.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Bomba made in Brasil

Desenho de Alfred Agache para a reforma urbana do Rio, O Cruzeiro, 10/11/1928

A revista britânica Jane’s, a mais reputada publicação do mundo em assuntos militares, publicou ontem uma matéria sobre o programa nuclear do Brasil. Nelson de Sá repercutiu a notícia na sua coluna da Folha de hoje. No entanto, ao contrário da leitura de Nelson de Sá, achei que a matéria da Jane’s tinha um tom voluntariamente ambigüo.
A frase inicial do texto, « While Brazilian nuclear intentions are not military in nature, the development of its civilian programmes could be motivated partly by political and commercial considerations”, deixa margem para concluir que o programa brasileiro pode ser ainda “partly” motivado por considerações militares. O artigo também ironiza a pretensão brasileira de esconder tecnologia nuclear alegamente inventada pelo Brasil, mas “já desenvolvida há mais de uma década com assistência técnica estrangeira”.
Depois de dizer que a Constituição limita o programa militar nacional ao uso exclusivamente pacífico (mas sem mencionar a ratificação do Brasil do TNP, em 1998), a revista conclui com uma frase de bem escrita ambigüidade: ” Yet potential capability remains; statements made since 2002 by current President Luiz Inácio Lula da Silva, Science and Technology Minister Roberto Amaral, and other Brazilian government and military officials have reinforced the belief of many observers that Brazil's civilian nuclear energy and naval propulsion programmes could be quickly diverted to acquire weapons-grade capabilities in the unlikely event of a change in government nuclear policy”.
As declarações duvidosas do ex-ministro
Roberto Amaral (que já saiu do governo há 4 anos), como as de outras autoridades, a respeito da finalidade do programa nuclear brasileiro, foram sempre reenquadradas pelo Itamaraty, o qual reafirmou o vínculo do governo ao TNP e a uma política pacifista.
O Brasil é o único país dos BRICs que não tem bomba atômica e que renunciou a tê-la num dispositivo constitucional reiterado pela assinatura de tratados internacionais (TNP e Tatlelolco). A tchurma da Jane’s ainda acha pouco, embora afirme ser « unlikely” (improvável) uma mudança na política pacífica do (deste) governo. Não li a matéria toda da revista, cujo teor é 4 vezes maior do que o texto postado no sítio. Posso estar sendo injusto. Mas tal como aparece no sítio, o texto retrata uma maneira elegante de exprimir uma opinião sacana : para a Jane’s, a legalidade constitucional e o respeito do Brasil aos tratados internacionais não vale lhufas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sífilis, Colombo e a aids

Carlos Schwabe (1877-1927), A morte do coveiro, Musée d'Orsay, Paris.

O Estadão, o Monde, o New York Times, entre outros, deram hoje a notícia de um estudo publicado numa revista especializada, por uma equipe de cientistas ingleses, americanos e canadenses, indicando que a sífilis foi trazida da América para a Europa pelos marinheiros dos navios de Cristovão Colombo. O fato apenas confirma a tése de muitos historiadores. Há 25 anos, ouvi um debate entre Philippe Ariès e Michel Vovelle em que os dois grandes mestres da história da morte no Ocidente davam esta informação com um dado estético avançado por Vovelle : depois da chegada da sífilis na Europa, no final do século XV, a morte deixou de ser representada somente por esqueletos humanos com uma foice e passou a ser também pintada sob a forma de uma mulher nua, diáfana : representação evidente da convergência entre sexo e perecimento (como muita gente representa agora a aids). Quando estava preparando o meu livro « O Trato dos Viventes » lembrei-me dos dois mestres, fui procurar mais historiografia especializada e redigi este parágrafo no capítulo 4 :

“Tudo indica que a sífilis se disseminou mundo afora a partir da América Central, no repique de uma mutação genética da bactéria Treponema pallidum.( C. C. Dennie, A history of syphillis; J.-C. Sournia, Histoire et médicine, pp. 167-70; F. Guerra, “The dispute over syphillis: Europe versus America”, Clio Medica, 1978, vol. 13, pp. 39-61). Fenômeno parecido deu-se com a bouba ou piã, enfermidade transmitida pelo Treponema pertenue, de sintomas semelhantes aos da sífilis e com ela freqüentemente confundida (Léry cita o piã como "a moléstia mais perigosa do Brasil", Narrative d'un voyage fait à la Terre du Brésil, trad. bras. Viagem à Terra do Brasil, pp. 245-6. L. Santos Filho, História geral da medicina brasileira, vol. i, pp. 185-8; Doc. de 1513 descreve o piã em Cabo Verde, onde provocava até lesões nos ossos, MMA², ii, p. 59, n. 1. No litoral de Angola, a doença se tornou endêmica no século xvii)".

Se tivesse de refazer tudo e tivesse agora 15 anos, iria estudar biociências, a disciplina mais fascinante da atualidade.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Sobre o império português

Saiu outro livro, agora aqui na França, sobre o império português, no qual estou envolvido. Trata-se de L'Empire portugais face aux autres empires. XVIe-XIXe siècle, organizado por Francisco Bethencourt e por mim, e publicado pela editora Maisonneuve et Larose (Paris).

O Sumário é o seguinte :

INTRODUCTION . .. . . . .. . . . . . . .7


LA DIMENSION DIPLOMATIQUE DE L’IMPÉRIALISME EUROPÉEN
Lucien Bély, Université de Paris IV-Sorbonne . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15

INTERACTIONS LUSO-NÉERLANDAISES EN EUROPE ET EN ASIE (1580-1663) Ernst van Veen, Université de Leyde . . . .. . . . . . . . . . . . . .41

COLBERT ET L’EMPIRE PORTUGAIS D’ASIE (1669-1670)
Philippe Haudrère, Université d’Angers .. . . . . . . .69

STRATÉGIES D’APPROPRIATION DES PORTS DE L’ESTADO DA ÍNDIA PAR LES COMPAGNIES BRITANNIQUE ET FRANÇAISE (1661-1813)
Ernestine Carreira, Université de Provence . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .79

PORTUGAIS ET OTTOMANS AU XVIe SIÈCLE
Gilles Veinstein, Collège de France / ÉHÉSS, Paris . . . . . . . . . . .121

MACAO ENTRE LA CHINE ET L’ASIE MARITIME : CYCLES D’ÉCONOMIE
Roderich Ptak, Université de Munich . . . . . . . . . . . . .137

LES DESCRIPTIONS QUI FÂCHENT. LA RELACIÓN DU JÉSUITE ADRIANO
DE LAS CORTES EN CHINE (1626) ET LE DÉNI DE LA COMPAGNIE
Pascale Girard, Université de Marne-la-Vallée .. . . . . . . . . . . . . .167

LA COGESTION LUSITANIENNE ET LUSO-BRÉSILIENNE DE L’EMPIRE
PORTUGAIS DANS L’ATLANTIQUE SUD
Luiz Felipe de Alencastro, Université de Paris IV-Sorbonne . . . . . . . . . . .185

IDÉOLOGIES IMPÉRIALES EN AFRIQUE OCCIDENTALE AU DÉBUT DU
XVIIe SIÈCLE
Diogo Ramada Curto, Institut Universitaire Européen de Florence . . . . . . .203

LES RELATIONS DES PORTUGAIS AVEC L’« EMPIRE » DE MONOMOTAPA
(1506-1695) Malyn Newitt, King’s College London . . . . . . . . . . . .249

LES ÉLITES DE LA MONARCHIE CATHOLIQUE AU CARREFOUR DES
EMPIRES (FIN XVIe-DÉBUT XVIIe SIÈCLE)
Serge Gruzinski, Centre National de la Recherche Scientifique /ÉHÉSS. . . .273

CULTURES ORGANISATIONNELLES DES EMPIRES EUROPÉENS
Francisco Bethencourt, King’s College London . . . . . . . . . . .289

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ditadura é Ditadura

Francis Bacon, Autoportrait, 1976, JSC Gallery

No 'Painel do Leitor' da Folha de São Paulo de 08/01/2008 saiu uma carta em que comento a coluna de Elio Gaspari, publicada na mesma Folha do dia 06/01/2008. Para quem não tem acesso ao UOL, segue abaixo o texto da carta.

"É a segunda vez que Elio Gaspari (6/1, pág. A10) escreve sobre a história de um irmão do marechal Castello Branco, demitido da Receita Federal porque o então ditador-presidente não gostou que ele tivesse sido presenteado com um carro por seus colegas de repartição pública. Ora, a torpeza dos regimes autoritários não depende da maior ou menor propensão dos ditadores ao roubo e à pilhagem dos bens nacionais. Salazar, opressor de Portugal, Angola e Moçambique, não enriqueceu nos seus 40 anos de ditadura. No que nos concerne, Castello Branco comandou um golpe de Estado que instalou a pior ditadura que o Brasil conheceu nos seus quase dois séculos de nação independente. É um grande disparate apresentá-lo como um estadista e um exemplo de moralidade pública."

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Sobre maio 1968

Walton Ford The Sensorium, 2003, Cortesia da Paul Kasmin Gallery

Já escrevi e falei sobre o movimento de maio de 1968. Como disse na entrevista a Ricardo Musse publicada pela Folha em 1998, eu estava em Paris e entendi tudo errado (há uma gralha no texto da reportagem: eu cheguei na França em 1966 e não em 1996). Também já disse aqui mesmo, no ano passado, que tô fora do narcisismo geracional meia-oiteiro.
Há duas semanas, o jornalista Amauri Barnabe Segalla, da revista Época, pediu-me uma entrevista sobre 1968. A reportagem saída agora na
revista cortou minhas respostas, aumentando a confusão entre o sentido das manifestações do 1968 brasileiro, onde havia a ditadura, e o sentido dos movimentos de 1968 dos EUA e da Europa Ocidental.
Por isso, retomo aqui o texto integral de minha entrevista à Época

- Que legado os movimentos de 1968 deixaram para o mundo de hoje?

R. O historiador Fernand Braudel fala do período histórico chamado “longo século XVI”, cujas mudanças começam antes de 1500 e terminam bem mais tarde, em meados do século XVII. Penso que que há também um “longo 1968” que começa antes de 1968 nos Estados Unidos com as primeiras manifestações contra a guerra do Vietnã e com o Black Power, com as manifestações estudantís lideradas por Rudi Dutschke na Alemanha, e a Internacional Situacionista de Guy Debord, na França. Da mesma forma, as consequências políticas e culturais do movimento de 1968 adentram pelas décadas de 1970 e 1980.

-Há quem diga que as principais mudanças não aconteceram nas ruas, mas dentro de casa, nos valores. A vida social tornou-se mais tolerante. Por exemplo: a divisão de papéis entre homens e mulheres foi recalculada. Os pais perderam a autoridade sobre os filhos. Você concorda que a única herança é de caráter social?

R. – É verdade que as mudanças culturais foram importantes. Mas as mudanças políticas também foram. Nos Estados Unidos, a guerra do Vietnã terminou em 1975 (mesmo se o país retomou guerras de agressão mais tarde), o regime de quase apartheid que mantinha os negros americanos numa situação de infra-cidadania foi desmantelado. Agora até Bush venera Martin Luther King. Na Alemanha, o Partido Verde é herdeiro direto do movimento dos sixties. O tema da ecologia tornou-se uma reinvidicação universal e agora é encampado pela ONU e o direito internacional.

Como seria o mundo hoje se a juventude, e não a repressão, tivesse vencido?-

R. Na França não houve repressão propriamente dita. Apesar das batalhas de rua do mês de maio, a polícia nunca atirou nos estudantes. Como noutros lugares, o movimento lançava reinvidicações e protestos, mas não planejava tomar o poder ou transformar-se em governo porque sabia que era minoritário eleitoralmente. Na América Latina era diferente porque havia ditaduras em toda a parte. No México, houve em outubro de 1968 o “massacre de Tlatelolco” onde mais de 300 estudantes e manifestantes foram assassinados pelo Exército. Isso relativizou as coisas e escancarou a truculência da direita latino-americana.

- Afinal, 1968 transformou o mundo?

R. Acho que as correntes políticas e culturais desta época mudaram as sociedades contemporâneas. Todas as manifestações anti-autoritárias de massa dos anos seguintes - no Chile em 1973, em Portugal em 1974, no Brasil em 1984 (as Diretas Já!), na China em 1989 – filiam-se ao movimento de 1968.

Por que hoje nenhum movimento é capaz de mobilizar os jovens como antigamente?

R. Não é bem assim. Na Sorbonne, em Paris, na França, sempre há manifestações estudantís e sindicais. Faz parte da cultura política do país. Há no mundo todo um sentimento pacifista que também saiu de 1968. Na Inglaterra e na Espanha houve nos últimos anos manifestações de massa importantes, contra a invasão do Iraque, que acabaram por derrubar Tony Blair e Aznar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O IPEA de ontem e de hoje

Tim Hawkinson, Emotor (detalhe), 2001, Coleção particular, Courtesy Ace Gallery, Los Angeles

A polêmica sobre as demissões no Ipea envolve vários problemas. Conheço Márcio Pochman, meu colega durante anos no Instituto de Economia da UNICAMP. É um economista sério e competente, que nunca foi sectário. Creio que muitos de meus colegas da UNICAMP compartilham esta opinião. As acusações de que ele estaria fazendo um “expurgo” no Ipea me parecem injustas. Os motivos levando à rescisão ou ao questionamento dos contratos de alguns economistas do Ipea tem fundamentos jurídicos ou administrativos que não foram -, aparentemente -, contestados pelos próprios interessados. No entanto, na sua coluna na Folha, José Alexandre Scheinkman sugere que a equipe de Paes e Barros, o PB, estaria sendo perseguida. Caso isto se confirme, trata-se de algo mais grave. Penso que PB e Pochman deveriam esclarecer este assunto.
No meio da polêmica veio uma declaração de Delfim Netto que também merece comentário: “Nunca houve censura de nenhuma natureza no Ipea. No período da ditadura, eles atacavam a ditadura à vontade e ainda recebiam aumento de salário. O que espero é que não haja nenhuma censura à pesquisa acadêmica que o Ipea tem produzido” (Folha de 15/11/2007).
Fica parecendo, sobretudo para os leitores mais jovens, que a ditadura respeitava opiniões divergentes, não sendo tão ditadura assim (“até recebiam aumento de salário”). Mesmo vazada em tom cínico, a afirmação foi retomada tal qual, sem nuances, por outros jornais e vários blogs.
Ora, a ditadura – da qual Delfim Netto foi um dos pilares e continua sendo um obstinado defensor - era uma ditadura. Expurgava o Brasil inteiro. Matava, torturava, estropiava, reprimia, censurava e cassava os direitos políticos de quem queria, quando queria. Para ficar só no quadro das personalidades mais conhecidas, lembro os economistas punidos pela ditadura por puro delito de opinião: Paulo Singer, Maria Conceição Tavares, prêsos, ameaçados e humilhados. Chico Oliveira, prêso e torturado, Celso Furtado e José Serra, exilados com seus direitos políticos cassados e perseguidos fora do Brasil pela sanha de diplomatas-meganhas.
Pochman parece ter esquecido disso quando convidou Delfim Netto para fazer parte do Conselho do Ipea.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

TV BRASIL


Outro dia houve um filme na TV sobre Marchais, o líder do PCF na época da União de Esquerda PS-PC. Marchais mexia os olhos o tempo todo e desorientava seus interlocutores, ganhando sempre os debates na TV e afundando cada vez mais o PCF: sucesso na TV e desastre nas urnas.
Mitterrand piscava bastante e também desorientava, quando queria, seus interlocutores. Num encontro dele com Miguel Arraes, eu fui acompanhando Miguel. Foi em 1980. Mitterrand, estava meio isolado e a mídia de esquerda preferia Michel Roccard como candidato da esquerda contra Giscard d’Estaing. Ele demonstrou bastante afeto por Miguel. Jacques Attali também estava no encontro e foi brilhante. Disse uma coisa que me impressionou (estávamos em 1980!): as grandes cidades da América Latina e da África – México, São Paulo, Lagos - vão escapar ao contrôle das autoridades públicas e virar amplos espaços urbanos de não-Direito.
Hoje, na ARTE, vi « Le Promeneur du Champ-de-Mars », filme de Robert Guédguian (marselhês ex e filo comunista) sobre Mitterrand, com o grande Michel Bouquet no papel de Mitterrand. Há toda uma noitada (filme + documentário) na ARTE sobre Mitterrand.
Fico pasmo que no debate sobre a TV Brasil sejam evocadas a BBC, a PBS (TV Pública dos EUA) e do Canal 7 (TV Pública argentina) e nem uma palavra é dita sobre a TV Pública de Cultura e de News franco-alemã ARTE, sucesso absoluto há 25 anos na Europa inteira (ARTE tem convênio com a BBC a
RAI e associa TV públicas de 10 países europeus). No caso da TV Brasil, compara-se seu pequeno orçamento com o enorme orçamento da BBC. Grande absurdo! A BBC cobre dezenas de países do
Commonwealth e usa a língua mais falada do mundo. Nada a ver com o escopo da TV Brasil.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

OS MASSACRES DE 1937

Como já escrevi abaixo, não tenho a menor simpatia por Putin. Todos os democratas da Rússia, Oropa e Bahia têm mêdo do autoritarismo deste ex-meganha do KGB. Mêdo que ele feche ainda mais o frágil sistema político russo. Mas, na semana passada, o homem prestou um serviço relevante ao seu país e à democracia. Homenageava-se as milhares vítimas dos massacres perpetrados em 1937 por Stalin. Num discurso em Butovo, perto de Moscou, onde milhares de pessoas – camponeses, operários, intelectuais, donas de casa – foram fuziladas, Putin lembrou as vítimas e afirmou que estas tragédias acontecem quando “idéias ostentivamente atrativas mas vazias são postas acima de valores fundamentais, valores da vida humana, de direitos e de liberdade”. O New York Times fez um editorial sobre o assunto, retomado no Herald Tribune. Outros jornais também falaram nisso.
No Brasil este tipo de notícia não atrai a atenção de nenhum editorialista. A propósito, lembro-me de ter visto num canal brasileiro uma longa entrevista de Prestes. De 1931 a 1934, ele vivia na URSS e trabalhava lá como engenheiro. No meio da entrevista ele disse que o período – que desembocaria nos grandes massacres de 1937-1938 - era complicado porque havia “muita sabotagem” nas obras feitas na URSS. Putizgrila! “Muita sabotagem” era precisamente o termo usado por Stalin e sua polícia para justificar matanças pelo país afora. A coisa era assim: uma equipe de engenheiros e operários fazia uma ponte com prazo marcadinho para acabar, mas não havia cimento na quantidade certa. Com mêdo de ir para o Gulag, os caras terminavam a ponte de qualquer jeito. Aí, quando ela rachava, todo mundo era fuzilado sob a acusação de “sabotagem”. Prestes falou em “sabotagens” na maior cara limpa e o entrevistador (não me lembro quem era) nem piou. A entrevista continua passando nos canais aí no Brasil. A moçada e os velhos desinformados engolem numa boa a mentira criminosa de Prestes e a omissão inepta do entrevistador.
O cartaz acima é tirado do blog do jovem russo
Alexander Zakharov, onde há uma grande coleção de cartazes da URSS. Tirei a informação do Le Monde.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Paredes de Abu Dhabi

Abu Dhabi é o principal emirado (Dubai é o segundo mais importante) da confederação formada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU). A região é fascinante.
Os EAU se apresentam como um caso único na História por causa de seus três quatro: têm 4% do petróleo mundial, cerca de 400.000 habitantes nativos e 4 milhões de estrangeiros, segundo algumas estimativas.
A Sorbonne tem agora um campus em Abu Dhabi (o Louvre também terá um museu na cidade, num belo projeto de Jean Nouvel). Como outros colegas, vim dar aula aqui durante duas semanas.
Não há registro histórico de um país que tenha conhecido uma ascensão econômica tão fulgurante num período tão curto. Nos anos 1950, não havia carros, nem hospital, nem escola em todo o emirado de Abu Dhabi. Os beduínos viviam pobremente no deserto, em torno de Al Aïn e outros oásis. Na ilha de Abu Dhabi, que deu o nome ao emirado, sobreviviam descendentes dos pescadores de pérolas que se arruinaram no começo do século XX, quando os japoneses começaram a produzir pérolas cultivadas.
Agora, os Emirados vivem na opulência e formam uma nação onde os estrangeiros – indianos, paquistaneses, cingaleses, nepaleses, iranianos, filipinos -, são dez vezes mais numerosos que os nacionais. Há povos e governos que surtam - mostrando a face mais abjeta do racismo - quando a porcentagem de imigrantes bate nos 10% da população nacional.
Há gente no Brasil que se impressiona com o fato de São Paulo ter contado, nos anos 1930, com um terço da população que falava italiano. Hoje, nos Emirados, existe mais gente falando híndi e urdu do que árabe. A convivência de tantas comunidades numa sociedade em mutação constante impressiona e constitui um importante trunfo político e cultural para Abu Dhabi e os Emirados.
Alguns lados de Abu Dhabi, e de Al Aïn, no interior do deserto, na fronteira com Omã, se parecem com Brasília no começo dos anos 1960. Guindastes e prédios em construção em toda a parte. Mas o andamento das coisas daqui tem outra dimensão. A maior mesquita do mundo, com um belo perfil arquitetônico, está sendo concluída em Abu Dhabi. Em Dubai, se constrói a maior torre do mundo no meio de muitos prédios recém levantados. A impressão que se tem é a de que estão querendo construir outra Manhattan em 10 anos.
Embora mais liberais que outros países árabes, nem Abu Dhabi, nem os Emirados em geral, respondem ainda às regras fundamentais que regem as sociedades democráticas. A questão que se coloca aqui é a mesma que concerne, mutatis mutandis, a reflexão recente de Howard French sobre a China: há um novo paradigma político no século XXI? os países podem crescer rápidamente, constantemente, engendrando sociedades cada vez mais complexas sem plena democracia?

P.S. - Estou migrando meu blog para o UOL. Onde colaboro no UOLNews. A ferramenta é diferente: deu para levar os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Livro


Vim à Londres para o lançamento deste livro sobre o império português, do qual participei. É o resultado de um seminário iniciado em 1998 na John Carter Brown Library, em Providence, R. I. O objetivo da obra é o de atualizar, para os leitores anglo-saxões, a historiografia sobre a expansão oceânica portuguesa, de 1400 a 1800.

Nos Trilhos



No Eurostar, logo na saída de Waterloo Station, o alto-falante anuncia que, a partir de 14 de novembro, haverá uma nova estação em Saint-Pacras. É em Bloomsbury, o Quartier Latin de Londres. De lambuja, a viagem Paris-Londres ficará 20 minutos mais curta. Será que intelectuais e os ingleses em geral vão se aproximar mais dos franceses? Duvido, No way : a tchurma em Londres continua se espelhando muito mais nos EUA. Começou durante a Segunda Guerra e continua pelo século XXI adentro.
Um colega que me ajudou muito na Faculdade e se aposentou neste ano, um cavalheiro e um erudito, contou-me que na Guerra de Independência dos EUA houve uma reunião em Versalhes, onde Luís XVI assuntou, procurando saber se valia a pena ajudar militarmente os americanos. Parte de seus conselheiros achou que sim: era, indiretamente, a revanche dos franceses sobre a derrota sofrida na Guerra de Sete Anos (1756-1763) que resultou na perda do Canadá para os ingleses. Mas outros conselheiros acharam que não: para eles, os americanos, protestantes e anglo-saxões, ficariam sempre do lado dos ingleses nos conflitos na Europa e no mundo. A história provou que estes últimos tinham razão.
E o Commonwealth cresce, até para onde não se espera: Moçambique está incluído no guia da Universidade de Londres sobre os países das universidades do Commonwealth. A França também costuma incluir Cabo-Verde entre os países da francofonia.

No hotel em que fiquei em Bloomsbury (Tavistock Hotel, velhinho simpático, com ambientes de Agatha Christie; o problema são as tomadas; é igual no Ouro Verde, em Copacabana, ou no Everest, em Porto Alegre, onde gosto de ficar: nos hotéis velhinhos simpáticos as tomadas estão atrás dos armários: tem Wi-Fi, mas o notebook tem que ficar com você pendurado na beirada da cama, ligado numa tomada na outra ponta do quarto) – e no trem onde estou agora, lí toda quase toda a imprensa inglesa.

No Eurostar há muitas revistas e jornais de graça. Nos bares e café de Londres, muito mais que em Paris, há bastante jornais de graça. Nos lugares supostamente trendy (na onda), a imprensa tradicional dá de barato que entregar de graça é uma boa estratégia para travar a concorrência dos jornais gratuitos. Não acredito nisso. Sou adepto da doutrina do Le Monde: o leitor tem que pagar o jornal para sentir que ele é coisa sua. Há algum tempo, o Le Monde tinha um princípio que não sei se ainda continua em vigor: a publicidade do jornal nunca podia ultrapassar 50% do seu preço. Ou seja: o leitor tem que pagar ao menos a metade do custo do jornal que está lendo.

O Economist, sempre bem escrito, sempre interessante, cobre muito bem a China. No último número há uma reportagem sugestiva: a parte da massa salarial no PIB chinês está caindo firme. Escorregou de 53% em 1998 para 41% em 2005 e continuou caindo em 2006. Nos EUA, onde, como se sabe, o governo não é comunista, a massa salarial representou 56% do PIB em 2005. Conclusão do
Economist: o arrôcho salarial está comprometendo a evolução da economia chinesa e isso pode atrapalhar o resto do mundo: está faltando luta de classes no milagre chinês.

P.S. - Estou migrando meu blog para o
UOL. Onde colaboro no UOLNews. A ferramenta é diferente: deu para levar os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

domingo, 7 de outubro de 2007

A tara da discriminação

Caravaggio, Medusa, 1598, Galleria degli Uffizi, Florença.

Escrevo de supetão depois de ler as três matérias da Folha de hoje sobre os jovens entre 16 e 18 anos que hesitam em se tornar eleitores. O TSE lançará campanha para mobilizá-los. Como declarou o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, “...a apatia não conduz a nada. O que nós precisamos é de perseverar e procurar a correção de rumos. E a forma de se corrigir rumos é participando ativamente, fazer uma revolução pelo voto, bem escolhendo aqueles candidatos que devem nos representar nos diversos cargos”.
Belas palavras. Mas nem o ministro, nem a propaganda do TSE, nem os jornalistas da Folha se lembraram do outro lado do problema: a Constituição deu o direito facultativo de voto aos jovens entre 16 e 18 anos, mas também aos analfabetos [art.14° § 1, a) e c), da Const.].
Sucede que os últimos dados do
IBGE, datando de 2005, mostram um contingente de 14,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas no país. É muita gente, gente! Quando se verifica o critério da cor aparece de novo a tara da discriminação racial. Cito o relatório do IBGE “a taxa de analfabetismo de pretos (14,6%) e de pardos (15,6%) continua sendo em 2005 mais de o dobro que a de brancos (7,0%)”. Noutro post me referi ao fato que a proibição de voto dos analfabetos constituiu um fator importante de exclusão da população negra da vida política brasileira. .
Ora, desde o início, a propaganda do TSE e da mídia tem procurado incitar os jovens de 16 a 18 anos incompletos a se tornarem eleitores. Mas não há notícia de propaganda similar dirigida aos analfabetos em geral, ou de medidas específicas para facilitar-lhes a obtenção do título de eleitor. Lembro-me de uma notícia ouvida no final de 1988 ou começo de 1989, antes da primeira presidencial direta, dizendo mais ou menos isso: “ a jovem Adriana Rezek, de 16 anos, filha do ministro Francisco Rezek (então presidente do TSE), foi uma das primeiras a obter seu título de eleitora, etc...”. (a moça se chamava Adriana, mas não estou seguro se tinha 16 ou 17 anos). Lembro também da reflexão que fiz então no Cebrap, ou escrevi alhures: ‘que tal prevenir dona Maria de Tal, empregada doméstica há 40 anos, negra e analfabeta, que ela também pode ser eleitora e festejar a obtenção de seu título eleitoral’?
Na época, aparecia na TV, na propaganda do TSE, um jovem surfista dizendo algo do gênero: “ e aí garotão, não vai tirar seu título eleitoral?”
Nada mudou de lá para cá. Fala-se sempre dos jovens (leia-se: jovens de classe média) que podem obter título de eleitor aos 16 anos e jamais dos analfabetos adultos que também têm este mesmo direito. O PT nunca se mexeu para mudar isso. O Movimento Negro nunca se mobilizou para mudar isso. A imprensa e a mídia deram pouca ou nenhuma notícia sobre o assunto, e os tribunais eleitorais continuam insensíveis ao tema.
Não há preconceito de classe? Não há preconceito de raça no Brasil? Então tá!
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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Coisas Vistas II


Alinho de maneira aleatória algumas notas escritas durante a viagem pelo Brasil.

A carpete do anexo do aeroporto Santos Dumont, inaugurado há alguns meses, já está rota como um tapete de bordel. As paredes externas da parte recentemente reformada de Congonhas parecem ter mais de cem anos. Não dá para entender a falta de cuidado.
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Andei bastante no metrô de SP e do Rio. Em geral, me parecem limpos, rápidos e seguros. É verdade que outro dia um passageiro foi assaltado e levou um tiro na saída da estação Trianon-Masp, em SP. Mas ele já estava fora do metrô. Talvez seja esta violência extramuros que torna o metrô brasileiro seguro. Explico-me: como os roubos são quase sempre à mão armada e podem gerar tiroteio (com a polícia, com os seguranças e com eventuais passageiros armados), o risco assumido por qualquer ladrão dentro do metrô é muito elevado. O vulgar batedor de carteira, o pickpocket – encontradiço nos metrôs de Paris, Londres e Nova York - cuja maneira de agir baseia-se na na discrição absoluta, segue um método absolutamente incompatível com a estrepitosa violência urbana brasileira (veja-se a crítica de Roberto Ribeiro ao célebre filme
Pickpocket (1959), de Robert Bresson). Daí o fato de haver poucos roubos destes – comparando por exemplo com Paris – no metrô de SP e do Rio.
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A TV mostra publicidades do balacobaco. Há um anúncio de um grande banco estrangeiro espalhado pelo Brasil, alegando que um sujeito com cara de palerma, atendendo pelo nome de Beto, “se apaixonou pelo mercado financeiro” depois de utilizar os serviços do dito banco. Até quando vai passar esta pornografia no horário livre?
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Fiquei perplexo com a tarifas extorsivas e despropositadas cobradas no Brasil e, sobretudo, pelas taxas escandalosas do ‘roaming’ de um município para o outro. Hoje no Herald Tribune há uma matéria mostrando como a União Européia botou pra quebrar e forçou as companhias de celulares daqui a baixarem as tarifas de « roaming »
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Canal Brasil é a melhor coisa que existe na TV brasileira. Sobretudo quando você está num apê frio numa praia no inverno. Vi coisas que gostaria de ter visto quando não morava mais no Brasil, outros filmes de que tinha ouvido falar e outros que nem conhecia. Vi, entre outros, Floradas da Serra,(1954) de Luciano Salce, com Jardel Filho e Cacilda Becker: é ruim, mas é bom. A jovem Cacilda Becker, visivelmente vestida e penteada para parecer com Katherine Hepburn, é de uma beleza estonteante. O filme se passa em Campos de Jordão, filmado como se fosse um resort europeu ou americano. Deve ser por isso que não aparece nenhum negro nos 100 minutos da película: nem mesmo como garçom ou engraxate. Os caras queriam, de qualquer jeito, fazer o Brasil parecer um país de brancos. Nos anos 50 esse tipo de tramóia ainda colava.

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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Rússia e Brasil

Walton Ford, Nila, 1999-2000, Coleção Privada, New York, Courtesy the Artist and Paul Kasmin Gallery

O presidente russo Putin abriu o jogo, deixando claro o esquema para perpetuar-se no poder. Como não pode candidatar-se a um terceiro mandato, está planejando trocar de lugar com o primeiro-ministro que acabou de nomear: Viktor Zubkov vira presidente nas presidenciais de março de 2008 e Putin será escolhido como seu primeiro-ministro.
Desde que tomou posse, Putin usou o regime semipresidencialista russo – similar ao regime francês, no qual o presidente é eleito pelo voto direto e o governo é exercido por um primeiro-ministro representando a maioria parlamentar - para
assentar sua autocracia.
Os parlamentaristas brasileiros sempre proclamaram que o regime semipresidencialista purgaria todas as mazelas da política brasileira e seria o modêlo institucional ideal para o país.
Como Ieltsin nos anos 90, Putin vem demonstrando que o regime semipresidencialista também pode se tornar um avacalhanço. Não dá mais para continuar dizendo por aí que o semipresidencialismo conserta de vez a política brasileira.
Escrevi, há quase dez anos, um artigo na mesma linha na
Folha de São Paulo intitulado O Brasil e a crise política na Rússia.

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domingo, 9 de setembro de 2007

Coisas vistas

Truísmo
Chego em casa em Paris, depois de dois meses no Brasil.
Fiz 18 viagens de avião pelo Br, entre as quais uma de Manaus a Porto Alegre, com escala em Guarulhos, na noite do crash do avião da TAM. Dei nove palestras no RS, SE, SP, RJ e MG. Para mim, foi muito bom e muito interessante. A palestra do ciclo “Mutações” organizado por Adauto Novaes e o Ministério da Cultura está
aqui.
No meio tempo, o casal de colegas com quem eu tinha deixado meu apê em Paris esqueceu uma torneira meio aberta. Teve vazamento na vizinha de baixo, rolo com a proprietário e confusão com o seguro. Encanei de encanador e resolvi outro problema num cano de entrada da água.
Depois fui fazer compras e vi que o Monop aqui do lado e as mercearias vizinhas não vendem mais um produto que, esborrifado, deixava as camisas quase passadas. Nos EUA tem vários troços deste gênero pra vender. Aqui havia dois. Um desapareceu e agora o outro está sumindo. Complô do capitalismo contra os homens autonomos que não sabem passar roupa a ferro? Aliança espúria entre as lavanderias de quarteirão e os grandes fabricantes?
Cortei o cabelo no barbeiro árabe do marché d’Aligre. Ele tem uma filosofia: o cara que senta na cadeira dele é como quem entra num avião: não pode dar mais palpite e se entrega na mão do piloto.
Leio daqui a entrevista que dei na sexta, antes de viajar, para Gabriel Manzano Filho, do
Estadão. Malgrado a competência de Gabriel, minhas respostas, lidas a 12 mil km de distância, parecem agora pouco incisivas. Dizer que a classe média é heterogênea é quase um truísmo. Eu devia ter insistido mais sobre a mudança sociológica que está ocorrendo nos diversos componentes destas camadas sociais e sobre a desordem do sistema federativo e eleitoral. A respeito da nova composição da classe média brasileira, a imprensa (e até o Economist) e o IBGE já assinalaram o essencial. Falta agora um bom sociólogo trabalhar este assuntão: dará um belo livro.
Trouxe muitas anotações do Br. Com mais calma e o escritório só meu que vou ter agora, escreverei algumas nos próximos posts.

domingo, 26 de agosto de 2007

O atraso do censo do IBGE

Residência à beira do rio Negro esperando o recenseador do IBGE

Há tantas coisas pra aprender sobre o Brasil que até o modo de aprender faz a gente aprender coisas.
Veja-se, por exemplo, duas notícias da Folha a respeito do censo populacional organizado pelo IBGE. A
primeira informa que o uso de computadores de mão com GPS - grande novidade do atual censo – está dando problemas no Norte e no Nordeste. A nova tecnologia trouxe recenseadores mais qualificados que têm menos facilidades para se relacionar com a população do interior. Segundo Maria Wilma Garcia, coordenadora do censo, os novos recenseadores vem do meio urbano e desconhecem as pessoas com quem estão lidando.
"Perdemos os caboclos da região porque eles não sabiam mexer nos computadores. Antes, eles pegavam a pastinha, caíam no mundo e voltavam depois de um mês com tudo pronto. Andavam a pé, a cavalo, de bicicleta, pegavam carona, dormiam nas casas das pessoas e eram conhecidos de todos." É uma frase bonita com um sentido triste. O recenseador “caboclo” entretinha com os habitantes a proximidade cultural que legitimava a demanda do IBGE, do poder público. Mal treinado, mal instruído pelo Estado ele perde o emprego, é excluído e o recenseamento empaca.
A segunda notícia, vem da reporter Malu Toledo, e descreve outra situação em que os agentes do IBGE não conseguem preencher os dados e atrasam o censo: os moradores de condomínios de alto padrão em São Paulo (como Alphaville), em Teresina e em Maceió, não deixam os recenseadores entrar ou recusam-se a falar com eles (assinante UOL clique
aqui)
É do balacobaco!
O tal do Abadia, megatraficante colombiano, comprou palacetes nestes condomínios com dinheiro vivo – prática perfeitamente ilegal segundo a
procuradoria federal - e tudo estava nos conformes. Nenhum grupo de proprietários ou administrador de condomínio botou defeito. Mas o funcionário público, no exercício de uma atividade elementar para o bom funcionamento da cidadania e do Estado, é barrado na porteira do condomínio. Durma-se com um capitalismo destes!
A antropóloga Teresa Caldeira, que foi minha colega nos bons tempos do Cebrap, tem um importante livro sobre o
assunto e escreve com propriedade: “Não é a cidade, por maior e mais diversa que seja, que se deve temer, mas sim a ausência de uma ordem pública e do respeito aos direitos dos cidadãos. Minar essa ordem para construir enclaves privados não pode dar mais do que a ilusão de proteção. A proteção ou é coletiva ou não será”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O reacionarismo paulista e o caminho das pedras


Desde os anos 1970, quando se tornou o centro político do país nação (em 1965, a eleição direta de Negrão de Lima – juscelinista declarado – para o governo da Guanabara, abalou a ditadura e mostrou que o Rio ainda era a capital política nacional), São Paulo elege o que há de pior e de melhor no Brasil. Jânio, Maluf, Enéas, Clodovil representam a primeira categoria. Ulysses, FHC, Suplicy, e Lula, cuja iniciação política deu-se em São Paulo, aparecem, conforme o gosto do freguês, como o que há de melhor. Num artigo na Folha em 23/10/2005 (assinantes UOL clicar aqui), procurei mostrar que este paradoxo constitui um dos componentes da “desordem paulista” que tumultua o quadro político nacional.
Dentre as coisas ruins da Paulicéia, existe, ainda e sempre, um tipo de reacionarismo proto-separatista sem paralelos no Brasil.
Assim, um artigo do deputado estadual paulista João Mellão Neto (“Os perigos da incomPeTência”), do DEM, publicado no Estadão em 3/08/2007, critica (com razão) a ausência de Lula junto às famílias das vítimas do Airbus em São Paulo, mas conclui com a seguinte reflexão: “Nada contra o fato de o presidente se refugiar nos Estados nordestinos. Afinal, é neles que se encontra a grande maioria de seus eleitores, todos eles devidamente subornados pelo Bolsa-Família. Mas, a bem da Nação, a sua passagem deveria ser só de ida. Chegou a hora de dizer: Basta!”
Subornados? BNH, correção monetária, juros altos para os bancos, juros negativos e perdão de dívidas para os usineiros, Proer, tudo que engordou a conta da classe média e de muita gente rica durante décadas desaparece diante do “suborno” do Bolsa-Família. Ora, como escreveu outro dia
Fernando Canzian no Folhaonline, “O difamado Bolsa Família é apenas uma fração dos juros pagos a quem tem dinheiro no banco, são 0,4% do PIB contra quase 7%”.
O raciocínio cerebrino do deputado pressupõe que a legitimidade presidencial só existe nas regiões onde Lula obteve maioria eleitoral. Lula venceu na maioria dos Estados do Norte e do Nordeste, mas ganhou também em Brasília, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nestes 5 Estados ele obteve uma vantagem de 7.291.000 votos sobre Alckmin no segundo turno. Ou seja, mesmo que todos os brasileiros do Norte e do Nordeste tivessem ficado em casa, ou pertencessem a um outro país, Lula ainda dava de lavada no candidato tucano no segundo turno. Para ser coerente, o deputado do DEM deveria também incluir todos os brasilienses, goianos, capixabas, mineiros e cariocas no seu ‘chega pra lá’ excludente e preconceituoso. De quebra, poderia agregar ainda, neste mesmo grupo de “subornados” cujo voto vale menos que o dele e de seus amigos, e que não pertence à "Nação" deles, todos os eleitores da Baixada Santista e da Grande São Paulo, que também deram a maioria de seus votos a Lula.
Falta quanto tempo ainda para a direita brasileira aprender o caminho das pedras da prática democrática?
P.S. -« O documento impressiona não apenas por revelar a amplitude a que chegou o programa [do Bolsa-Família] em um punhado de anos e sua focalização em geral adequada – uma proeza nada desprezível considerando a extensão do território coberto, o formidável contigente alcançado e o histórico brasileiro de monumentais desvios de verba no assistencialismo tradicional”, [mas impressiona ainda porque] “80% dos quase R$ 8,8 bilhões desembolsados pelo governo aliviam efetivamente a situação dos 40% mais pobres entre os brasileiros. E, desde o advento do programa, a concentração de renda diminuiu 4% no país”.
Os trechos acima foram extraídos do editorial equilibrado e pertinente do Estadão de 23/08/2007 que comenta estudos do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ipea sobre o Bolsa-Família (“O Brasil do Bolsa-Família”)

domingo, 5 de agosto de 2007

Fidel, o Itamaraty e os boxeadores cubanos

Guillermo Rigondeaux, arquivo Folha de São Paulo

O Itamaraty e o governo brasileiro decidiram deportar os dois boxeadores cubanos. Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara desertaram do Pan no Rio. Segundo um delegado da PF, eles queriam voltar para casa e recusaram o estatuto de refugiados políticos. Num texto publicado em Havana, Fidel anunciou que não punirá Rigondeaux e Lara.
Nos países democráticos há um princípio jurídico básico na matéria. Nenhum suspeito, e nem mesmo um criminoso julgado à revelia no seu país de origem, pode ser extraditado para este país, se a pena ali aplicada for maior que a pena prevista no país ao qual foi solicitada a extradição. Na União Européia, onde não há pena de morte, o problema já ocorreu várias vezes com estados dos EUA que admitem a pena capital. No caso, a UE só admite a extradição de foragidos dos EUA quando os promotores americanos comprometem-se a não requerer a pena máxima.
É certo -, como bem observam João Batista e o Moço da Bodega em comentário à primeira versão mal redigida deste post -, que os cubanos foram deportados porque estavam no Brasil sem documentos, e não extraditados, prática reservada a criminosos. Ainda assim, considerando que o regime cubano costuma cair de pau nos que tentam emigrar ilegalmente e nas suas famílias, a deportação representava um risco para Rigondeaux e Lara. Pra que essa pressa toda para mandar os caras embora? Vivi no exterior no meio de gente sem documentos na época da ditadura brasileira. Quando estão neste sufoco as pessoas se desesperam, perdem o pé. O estatuto de refugiado tem vários constrangimentos. Antes de entrar numa dessas, é preciso refletir, sem pressões de prazos e da polícia local.
No caso de Rigondeaux e Lara, por analogia, deveria ser observado o princípio jurídico explicitado acima a respeito da extradição.
De fato, nos aeroportos de nosso país desembarcam regularmente brasileiros deportados dos EUA e da UE por delito de ausência de visto ou de passaporte. Aqui chegados, eles pegam a mala e vão para casa: nenhuma lei brasileira pune a emigração ilegal se não houver falsificação de documentos. Em Cuba não é assim.
O Ministério Público Federal havia pedido a abertura de inquérito e queria ouvir os dois atletas antes de autorizar a deportação. O mínimo que se espera agora é que as autoridades brasileiras tenham obtido o engajamento formal do governo cubano de que não haverá perseguição aos atletas e à suas famílias. E que a embaixada brasileira em Havana siga o assunto de perto.
(Post modificado em 6/08).

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Desordem no ar

A série de desastres, de apagões nos aeroportos, de descontroles dos controladores de vôo, de afrontas das companhias de aviação e de declarações estapafúrdias dos membros do governo revela algo mais que o caos aéreo.
Falastrão incorrigível, o ministro Mantega afirma que a confusão nos aeroportos é sinal de progresso. Sobre o mesmo assunto, a ministra Marta Suplicy fez uma piada grotesca pela qual se desculpou. Porém, depois do crash de Congonhas, quando foi interrogada, disse que nada tinha a declarar. Caramba! Nada a declarar depois de um drama destas dimensões?! O ministro Waldyr Pires, homem decente que já deveria ter se retirado do ministério se seguisse seu antigo bom senso político, vem à TV eximir-se das responsabilidades inerentes à sua pasta. Marco Aurélio Garcia fez um gesto obsceno na privacidade de seu escritório. A carta de um leitor da Folha de S. Paulo, publicada hoje, pretende que se tratou de um “desabafo” contra acusações indevidas ao governo. Tudo bem. Mas as justificações dadas em seguida por Marco Aurélio denotam, no mínimo, falta de juízo político. No mesmo pique, ninguém no governo se tocou sobre o fato de que não era oportuno condecorar agora dois altos dirigentes da ANAC. Enfim, Lula esperou sarar do terçolho para dar satisfações à nação e apresentar suas condolências às famílias que choravam seus mortos há mais de três dias.
Separadamente, cada um destes fatos pode ser atribuído à falhas de assessoria. Postos lado a lado, eles revelam a realidade mais patética e mais grave de um governo que parece descolado das preocupações do país e dos sentimentos da população.
Como pequena contribuição ao inventário da baderna no ar, incluo a foto acima, retratando um incidente ocorrido num táxi aéreo em que viajei na semana passada na Amazônia. O bimotor ia levantando vôo com a tampa de um dos 2 tanques de querosene aberta (cf. o pequeno ponto preto sobre a asa). Voltou da ponta da pista para fechar o tanque depois do alerta de um de meus companheiros de viagem.
Noutro registro, cabe assinalar que o desgoverno aéreo junta-se às pauleiras envolvendo atletas brasileiros no Pan e à grossura de uma parte do público carioca para comprometer as chances de o Brasil organizar as próximas
Olimpíadas e a Copa do Mundo.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Paredes de Manaus

Num restaurante à beira do rio Solimões, pouco abaixo de Manaus, os toaletes estão indicados assim, no estilo pós-indígena, neo-caboclo.
Confirma-se aqui na Amazônia algo que eu já tinha notado noutras partes do país: o barulho é a maior praga do Brasil! Morei num prédio de condomínio em São Paulo onde havia uma martelagem contínua para consertar vazamentos de banheiros, canos da área de serviço, assoalhos com cupim, fiação defeituosa, como se o prédio tivesse de ser refeito todos os trimestres. Uma equipe permanente de encanadores, eletricistas, carpinteiros, tirava o seu ganha-pão das carcaças perfuradas dos três prédios do condomínio.

É sabido que os paulistanos buzinam nos túneis, os cariocas estralam os ouvidos de quem anda por Copacabana, os baianos infernizam as praias de Salvador com uma cacafonia depois cobrada por alto preço pelo dono do boteco, o Ver-o-Peso em Belém mistura todas as rádios e todos dos canais de TV na contigüidade escancarada de seus 150 bares e restaurantes.
Mas o barulho mais sinistro de todos, nem assim tão estridente, ouvi hoje, num barco no Solimões: o retinir incessante das motosserras nas margens do rio.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Cosméticos de fundo de loja

Os economistas brasileiros já sabem: quando há aumento da renda, o consumo popular de produtos de higiene e cosméticos sobe na hora. Aliás, nunca li nenhum estudo sobre a forte atração dos brasileiros por estes produtos. Suspeito que tenha a ver com o culto do corpo e o eventual desconforto de cada um com o seu jeito, com o seu próprio fenótipo. A coisa vem desde o século XIX, como mostrei um pouco no volume 2 da História da Vida Privada no Brasil. De todo modo, quando há um pouco mais de dinheiro na praça, as multinacionais entram pesado, inundando as prateleiras das lojas com “gosméticos” (como dizia uma garotinha minha conhecida) de nome pseudo-sofisticado. Na outra ponta, desaparecem os produtos tradicionais. Sempre que vinha ao Brasil, comprava sabão Aristolino, um must da moçada das praias nos anos 60 e 70. Agora, já desistí. Sumiram com o Aristolino, que era sabão e shampú, e com muitos outros ‘gosméticos’.
Em Belém, onde estou agora, a invasão de marcas estrangeiras é meio caricatural. Na frente das lojas e das farmácias, vêm estas marcas todas. No fundo, aparecem as marcas regionais, cheias de fragrâncias amazônicas. Cheiro do Pará (comprei este, é bem bom), Flor de Açaí, Pau Rosa, Pau d’Angola, Manteiga de Karité (produto de origem africana), Priprioca, e por aí vai. O "gosmético" pasteurizado, ácido e banal fica na frente. O suave, o sensual, o quente, fica no fundo da loja e é bem mais barato.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Civilização x Selvageria

No Globo de hoje, Miguel Conde dá notícias da Flip e menciona minha crítica ao comentário do governador Sérgio Cabral sobre a ação da polícia no Complexo do Alemão.
A coisa é assim: minha
participação em Paraty foi para comentar ontem, domingo, a novela “No coração das trevas” (1902), em homenagem aos 150 do nascimento de Joseph Conrad. Tentei mostrar que Conrad, escrevendo a respeito da pilhagem do Congo pelo rei Leopoldo II da Bélgica, ilustrava o esgotamento da idéia de “civilização” que até então servira de justificação ideológica à expansão colonial européia.
No final, citei a entrevista de Sérgio Cabral, em O Globo, do dia 1 de julho, sobre a guerra no Complexo do Alemão :”ninguém agüenta mais isso, temos uma bifurcação que eu enxergo clara: ou é o caminho civilizatório ou é o da selvageria”. Penso que se trata de um vocabulário de outros tempos, cunhado no contexto colonial para sujeitar nativos ameríndios, africanos ou asiáticos. Numa democracia, numa república, onde os cidadãos elegem seus representantes, nenhum governador, nenhum dirigente político pode se arvorar em condutor de qualquer “caminho civilizatório”.

P.S. – O laudo da OAB, divulgado dia 12/07, confirma a sinistra realidade: algumas das 19 pessoas mortas pela polícia no Complexo do Alemão foram executadas a sangue-frio.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje


Blogueiro itinerante fica meio paradão. Ainda mais com a pasmaceira do internet aqui em Paraty, onde estou agora.
Ontem de manhã, esperando no Galeão as malas do vôo que me trouxe de Paris, reconheci J.M. Coetzee, vindo no mesmo avião na ponta da mesma esteira. Como a coisa estava demorando, puxei papo com ele. Tietagem às 5 da manhã, acompanhada de uma oferta de ajuda no solo brasileiro, não é assim tão grave e ele conversou à vontade. Vinha da região de Toulouse, no Sul da França. Quando eu disse que era professor em Paris, ficou muito interessado em saber as reações dos estudantes e dos professores sobre as propostas de reforma universitária de Sarkozy. Pareceu-me bastante informado sobre este e outros assuntos da França, Argentina, Austrália (onde mora). Contei pra ele que há uns dias, no final de uma correção de provas de fim de ano universitário, disse para os 3 monitores que trabalham comigo que estava vindo para a Flip, Paraty, que Nadine Gordimer e ele estariam aqui, etc. Aí, um dos monitores, um carinha jovem, sacou do bolso um livro dele, Coetzee. Ele deu um sorriso feliz, contentão, ali no meio do giro das malas. Hoje, às 5 da matina, em Paraty, sem sono por causa do jet-lag, vim vaguear no salão da pousada e dei de cara com ele de novo: estamos hospedados no mesmo lugar e ele também estava atrás do internet. Conversamos um pouco. Mas daqui em diante recolho-me à minha insignificância e dou apenas um olá de longe: o homem me parece já estar meio farto de assédio e entrevistas: é duro ser prêmio Nobel e um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje.

domingo, 1 de julho de 2007

O Socialismo vem de bicicleta?

Dois artigos interessantes, um no Le Monde, outro no New York Times, apontam novas configurações da esquerda na França e nos EUA.
Nas presidenciais francesas, a maioria dos jovens votou em Ségolène Royal. Se, por hipótese, os eleitores maiores de 65 anos não votassem, ela teria sido eleita. Além do mais, houve confirmação do fenômeno constatado em Paris nos últimos anos: as grandes cidades passaram a votar nos candidatos de esquerda. Bordeaux, Lyon, Caen, Toulouse e Strasbourg, correspondem a este perfil. Há uma expressão –
bourgeois bohème (“bôbô”) – cunhada pelo jornalista americano David Brooks, caracterizando o modo de vida e a categoria de eleitores de esquerda formada por profissionais bem remunerados, intelectualizados, adeptos de culturas alternativas e morando nos velhos quarteirões reabilitados das grandes cidades. Gente mais aberta à cultura dos imigrantes, à mistura social e à vizinhança de artesãos, mercearias e botequins. Paris inaugurou a tendência do sufrágio "bôbô" com a eleição à prefeitura do socialista Bertrand Delanoë, gay assumido, em 2001. A última iniciativa meio “bôbô” de Delanoë será inaugurada dia 15. Mais de 10.000 bicicletas distribuídas em 750 estacionamentos espalhados pela cidade poderão ser utilizadas quase de graça pelos parisienses.
Nos EUA, uma sondagem recente mostra uma repolitização e uma virada à esquerda dos jovens entre 18 e 29 anos. Reagan (1984) e Bush (1988) foram eleitos com a maioria do voto dos jovens que, atualmente, puxam o carro para ir votar nos democratas. Hillary Clinton e, sobretudo, Barack Obama são os candidatos preferidos pelos jovens eleitores.
Lenine dizia que o socialismo compunha-se dos soviets e da eletricidade. O socialismo urbano do século XXI será a soma do notebook e das bicicletas? Não é assim tão simples. A sondagem do NYT, bastante completa, mostra opções políticas e sociais precisas que levam os eleitores jovens americanos mais para a esquerda. Na França, as coisas estão mais fluidas e tornam complexo o debate ideológico e partidário que se impõe a um Partido Socialista bestificado por uma série de derrotas eleitorais.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Sem saber porquê


Muita coisa para comentar, dentro e fora do Brasil. Mas é difícil deixar de falar de novo da guerra no Complexo do Alemão, depois da foto de Tasso Marcelo, da Agência Estado, publicada na quarta-feira no portal UOL. Mesmo mal editada, ela trouxe à memória a célebre fotografia de Sam Nzima, no dia 16 de junho de 1976, durante o massacre provocado pelo regime de apartheid sul-africano no gueto de Soweto, subúrbio de Johannesburg. Claro que não há apartheid no Brasil, claro que o governo Lula e o governo de Sérgio Cabral, não tem nada em comum com o filo-nazista Vorster, primeiro-ministro sul-africano em 1976.
Mas as duas fotos transmitem o mesmo desespero de gente que tem muito em comum. Gente do Atlântico Negro, que vive em favelas, que tem seus direitos desrespeitados, que leva tiro da polícia sem saber porquê.
O menino da foto de Sam Nzima tinha 12 anos e se chamava Hector Pieterson. Hoje em Soweto há um memorial com o seu nome, homenageando as duas centenas de pessoas mortas em junho de 1976.
Como se chamava a criança da foto do Alemão? Que idade tinha? Será o menino de 13 anos, um dos três adolescentes incluídos nos 19 mortos da quarta-feira,
coletivamente catalogados pela polícia e por uma parte da imprensa como “bandidos”?

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Os confins do capitalismo

Trabalhadores cativados numa olaria chinesa, foto Agence France-Presse — Getty Images no New York Times de 16/06

Há dias que eu queria chamar a atenção para três notícias recentes sobre os desdobramentos da globalização. Em primeiro lugar, o avanço da financiarização do capital através da atividade crescente dos fundos de investimento não cotados na Bolsa, ditos de private equity. Segundo Eric Le Boucher, um dos colunistas econômicos do Le Monde, no ano passado as Bolsas européias registraram a entrada de 716 empresas com um capital total de 85 bilhões de euros. No mesmo ano, os fundos de investimento de private equity investiram 71 bilhões de € em 7.500 empresas européias. Debates de especialistas na TV chamaram a atenção para o caráter especulativo destes investimentos, a opacidade que cobre suas atividades e o risco representado por mais esta etapa da desregulamentação capitalista. Apesar disso, Martin Wolf, um dos melhores comentadores econômicos da atualidade, faz um ponderado elogio desta nova fase de predominância do capital financeiro (a primeira foi na virada do século XIX).
Em segundo lugar, vem a pedreira do capitalismo chinês, cada vez mais caracterizado como um sistema truculento de exploração de mão-de-obra
semi-servil. Assim, como escreveu um cronista do New York Times, a China aparece como a última grande ditadura capitalista do mundo.
Robert Fogel, o prêmio Nobel de Economia que é, também e sobretudo, um brilhante historiador econômico, escreveu um paper Capitalism and Democracy in 2040 (o texto completo aqui é pago, mas aqui está resumido), muito otimista sobre a China. Segundo ele, em 2040, o PIB da China será de 123 bi $, ou seja, 40% do PIB mundial, e perto de 3 vezes do PIB mundial de 2000. Àquela altura, o mercado chinês será maior que os mercados combinados dos EUA, da UEuropéia, da Índia e do Japão. Se for verdade resta acrescentar: Karálio! Olha o monstro capitalista que vem por aí! Fogel pensa que não vai haver quebradeira de bancos chineses, nem problemas políticos no país. Tudo isso por causa dos ganhos de produtividade acumulados com a passagem da população rural para as cidades e, principalmente, com os resultados dos investimentos maciços na educação (a grande vantagem da China sobre a India). Ele acha que tudo vai dar certo no meio tempo, porque a China tem boa experiência na cooptação das elites (Os jesuítas e dominicanos portugueses – como frei Gaspar da Cruz - idos à China nos séculos XVI e XVII, também se embasbacaram com a administração do mandarinato chinês, inaugurando assim a sinofilia ocidental, que ganhou a esquerda nos anos 1950-1970 e agora tem tantos adeptos na direita).
No entanto, faço minhas as restrições levantadas ao paper de Fogel pelo professor Tyler Cowen, economista reputado e editor de um blog bastante original: “Repete aqui comigo: a China no século XX teve duas grandes Revoluções, fases de fome generalizada, a Revolução Cultural e, alegadamente, o ditador mais tirânico de todos... E agora eles vão passar dos farrapos à riqueza sem ao menos um arroto nesta evolução econômica? Eu não penso que isso possa ser dito assim!”
Neste ínterim, na maioria dos países desenvolvidos, a globalização tem acentuado as desigualdades de renda, não somente em detrimento dos trabalhadores menos qualificados, mas também em prejuízo da classe média, como sugere um estudo recente da OCDE. Sim senhor! A classe média também se ferra: é só ver o comentário do Economist.
Em terceiro lugar, queria falar de uma noticiazinha que tem tudo a ver conosco. Cada vez mais está em uso a etiqueta RFID (Radio Frequency Identification). Enfiada em qualquer canto de uma mercadoria, ela ajuda as grandes marcas a combater a pirataria de suas grifes. Algumas boates na moda já tem um enfermeira na entrada que insere, sob a pele dos clientes que desejarem, a RFID. Aí, o cara paga suas bebidas, entra nas zonas reservadas, etc., sem ter que tirar a carteira toda hora. No México, já se achou outra utilidade para a RFID: enfiá-la na pele de crianças e adultos que podem ser vítimas de seqüestro. Com este xavecozinho fica mais fácil saber onde estão sendo seqüestrados.
Se alguém ler isto aqui e abrir uma firma do ramo no Brasil, eu quero uma comissão, hein!

terça-feira, 19 de junho de 2007

52 motivos para falar mal do Brasil

A foto de Michel Filho saiu no GloboOnline de hoje, seguida da descrição da cena. Mães e crianças fogem na saída de uma escola do Morro da Fazendinha (RJ), em meio a um tiroteio entre a polícia e os traficantes. Crianças e mães, em maioria negras, arriscando a vida no seu dia a dia. A notícia diz ainda que na zona vizinha do Complexo do Alemão a batalha já dura 49 dias. Quarenta e nove dias. Mortos, famílias aterrorizadas, meninada fatalista.
Entrementes, a
harpista russa Anna Verkholant, vinda ao Rio para participar no II Festival de Harpas, foi assaltada na frente do Hotel Glória, onde estava hospedada. Houve comoção por atacado e a granel no establishment carioca. Alfredo Lopes, presidente da Associação da Indústria Hoteleira foi direto ao ponto que lhe interessa: "Isso foi péssimo. O turista é facilmente identificável e vira uma presa fácil. A polícia não consegue garantir a segurança perto dos hotéis ou de áreas turísticas porque simplesmente não tem efetivo". No que lhe concerne, o diretor do Festival, Sérgio da Costa e Silva, afirmou que a organização do evento orientara os músicos a só deixarem o hotel acompanhados pela produção e acrescentou: "Foi uma fatalidade... Temos que reverter o impacto negativo que esse fato pode ter em outros músicos que desejarem tocar no Brasil".
Na mesma altura, criticando os brasileiros que
falavam mal do Brasil, Lula declarou: "Nós é que temos que cuidar da nossa imagem, nós é que temos que cuidar daquilo que nós queremos preservar e nós precisamos cuidar da imagem que nós queremos ter aqui e lá fora."
No Morro da Fazendinha e no Complexo do Alemão, a polícia, o Estado, a cidadania, “simplesmente não tem efetivo”. Os brasileiros que ali “desejarem tocar” suas vidas, sofrem uma contínua “fatalidade”.
Uma foto destas interpela a identidade nacional. E dá vontade de falar incansávelmente mal do Brasil. Dentro e fora do país. Amanhã, a batalha do Complexo do Alemão entra no seu qüinquagésimo dia. Depois de amanhã, estará no qüinquagésimo primeiro. Na manhã seguinte completará o qüinquagésimo segundo dia...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O "caso Lamarca" e o editorial da Folha

Lido aqui de manhã cedo, quando no Brasil ainda é alta madrugada, o editorial de hoje da Folha, “O caso Lamarca”, me deixa perplexo. Os argumentos avançados no texto, contrários à decisão de promover Lamarca a coronel e indenizar sua família, parecem coerentes. Mas em nenhum momento fazem referência à fundamentação jurídica seguida pela Comissão de Anistia.
Noutra página do jornal, vem resumido o histórico da decisão. “O primeiro reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte de Carlos Lamarca foi em 1996, quando a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça determinou o pagamento de indenização à família.A decisão foi inovadora, já que a lei vigente limitava o pagamento às famílias dos mortos em dependência policial. Morto em campo aberto, entendeu-se que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir. Em 2004, a lei foi alterada e as possibilidades de indenização, ampliadas. Anteontem, a Comissão de Anistia determinou o pagamento de pensão de R$ 12.152,61 à viúva. Os crimes ou a deserção do Exército não entraram em discussão porque, em 1979, o país aprovou a Lei da Anistia, que perdoou os crimes cometidos durante o regime militar.”
O julgamento dá lugar a controvérsias. Porém, o editorial da Folha enviesa o debate e termina com uma conclusão bizarra: “Por tratar-se de um prêmio à deserção, ademais, a equiparação de seus vencimentos ao de um general afronta os princípios de disciplina e subordinação, pilares das Forças Armadas”.

Faltou serenidade e sobrou ambigüidade. O editorial desconsidera o fato de que o caso estava praticamente julgado desde 1996, e que o crime de deserção fora apagado, anistiado, pela Lei de 1979. Não há, em espécie, nenhum “prêmio à deserção” ou qualquer “afronta” à disciplina militar. Mesmo porque os "pilares" das Forças Armadas, da CBF, do ensino escolar e do cotidiano brasileiro são o respeito ao Estado de Direito e à Constituição dele procedente. Quem não estiver de acordo deve recorrer aos tribunais.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Coisas do Balacobaco

O Profeta Jonas despejado pela baleia, Anônimo, ícone do século XX, Holy Transfiguration Monastery Brookline, MA, EUA
Esta é uma nova seção deste blog. Sob inspiração do profeta Jonas, que viajou três dias e três noites dentro da barriga de uma baleia (um passeio do balacobaco!), e em homenagem ao crítico de arte Rodrigo Naves. Aqui vou comentar coisas sem sentido pra uns, com sentido pra outros, mesmo que não façam sentido em geral.
A primeira delas, origem da idéia de abrir a seção, descobri agora, preparando o material sobre o livro Heart of Darkness (No Coração das Trevas), de Joseph Conrad, que irei comentar no dia 8 de julho na
Festa Literária Internacional - Flip, em Paraty. Em 1889, Conrad, funcionário da companhia belga Société Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo se dirige para o Congo, onde ele observará fatos e pessoas que aparecem na trama de Heart of Darkness, publicado dez anos mais tarde (1899-1902). O navio francês no qual ele embarca em Bordeaux, no litoral atlântico da França, para chegar até Matadi (porto fluvial na margem esquerda do rio Congo, hoje situado no Congo Kinshasa, na fronteira com Angola, minha terra), chamava-se Ville de Maceió. Conrad foi para o Congo, de onde tirou Heart of Darkness, embarcado no vapor Maceió! Taí algo do balacobaco.
P.S. Do balacobaco é também a proposta do ministro da Educação da Polônia, Roman Giertych, solene energúmeno, extremista católico, que quer retirar as obras de Conrad, Witold Gombrowicz, Goethe e Kafka do ensino escolar polonês. Tudo isso para aumentar a carolice inculcada nos jovens com escritores como João Paulo II “e outros autores desconhecidos que darão só uma resposta, a resposta correta deles, para todos os dilemas...”. Palavras do energúmeno, segundo o The Times.
Quem estiver trancado no trânsito, num aeroporto ou num barco subindo o rio Madeira com fazendeiros armados para atirar nos natives sem-terra, e tiver Wi-Fi, pode ouvir Heart of Darkness lido pelo ator inglês Toby Stephens, com o autêntico sotaque british que Conrad nunca conseguiu capturar. Se quiser também pode ler o livro inteiro.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Paredes de Paris


Vi a dica em Manhattan, de Woody Allen, e passei ao ato em N.Y., e sobretudo em Paris desde a época do filme, 1979 : é legal olhar para a parte de cima dos prédios, para os 3°, 4°, 5° andares que a gente nunca observa quando anda na rua. Este prédio na praça da Bastilha, bem na frente do ponto do ônibus que tomo todo dia para ir à Universidade, tem uma marca única: um furo de bala feito nos combates do 14 de julho de 1789 (do lado direito da foto). Pouca gente saca este buraquinho revolucionário. Provávelmente, um tiro de um soldado monarquista contra um insurreto tocaiado no prédio (na pedra está gravado: "souvenir 14 juillet 1789", a grafia dos números leva jeito de ser do começo do século XIX).
Acho que Revolução pra valer na época moderna, só teve três: a Revolução Americana (1776), a Francesa (aqui da foto, em 1789) e a do Haití (1791). Todas as outras, inclusive as das independências latino-americanas – conduzidas por Bolívar, San Martin, Tiradentes ou D. Pedro I (conforme o gosto) -, pegaram carona nas duas primeiras. A do Haití também pegou, mas virou o jogo de outro jeito.
Volto ao assunto mais adiante, quando começar o oba-oba em torno dos festejos dos 200 anos da chegada da Corte no Rio de Janeiro.
P.S. – Em resposta aos comentários de Macfa e Ricardo, lembro que me referi aqui à periodização utilizada na França e em alguns outros países: a época moderna acaba com estas Revoluções que liquidam o Antigo Regime. O período que vem em seguida, dominado pelas forças em gestação no período anterior: capitalismo, burguesia e Estado-nação, é o período da história contemporânea: as Revoluções de 1848, a do México, a Russa, a Chinesa e a Cubana são revoluções da época contemporânea. é outro papo. Concordo que esta divisão pode ser questionada no Brasil e nas Américas e não tem nada a ver noutras partes do mundo.

Um bom trabalho mal comentado


Volto à reportagem da BBC sobre o estudo do geneticista Sérgio Danilo Pena, da UFMG, a respeito da ancestralidade africana dos brasileiros. No Cebrap, onde trabalhei 13 anos, a transdisciplinaridade era questão de sobrevivência. Tive a sorte de contar com a ajuda de um geneticista, Marco A. Zago, da USP, na seção " a unificação microbiana do mundo", que trata da pouca resistência imunológica dos índios frente aos africanos e europeus, no cap. 4 meu livro O Trato dos Viventes.
Meu post comentava a notícia d
a BBC, a mais respeitada empresa de mídia do mundo. Assinalei aqui as matérias muito interessantes que a BBC fez ultimamente sobre o tráfico negreiro em geral e a situação do clero negro no Brasil em particular. Não obstante, na notícia sobre a ancestralidade africana aparecem, do jeitinho que citei –, é só ler o link -, informações desastradas sobre o tráfico negreiro. Tentei em seguida, em vão, acessar o estudo original de Pena. Parece que o texto ainda não foi publicado. Mas, no material da Fapesp, pude ouvir seus comentários (bloco 3 do programa de rádio de 05/05/2007) e, alertado pelo comentário de Milton Ohata, ler mais detalhes sobre sua pesquisa (n° 134, de abril 2007, da Revista Pesquisa Fapesp). Assim, há uma pesquisa paralela, ainda não publicada, com negros do Rio e do RS, conduzida pela equipe da geneticista Maria Cátira. De seu lado, Pena e Flávia Parra também analisaram dados de 173 homens brancos, negros e pardos no interior de MG. Em nenhum lugar Pena aparece dizendo que a cidade de São Paulo (onde os estrangeiros formavam 1/3 da população nos anos 1920 e 1930) é representativa da população brasileira, ou que não há estatísticas sobre o tráfico de africanos entre 1830 e 1850. Fica assim preservada a integridade científica de Sérgio Danilo Pena e a seriedade de sua pesquisa.
O leitor João Paulo Rodrigues atribui às jornalistas da BBC os disparates sobre o tráfico negreiro misturados à reportagem sobre o estudo de Pena. Se tiver sido este o caso, Pena deveria ter ido pra cima delas e desautorizado a confusão. Algumas das afirmações ali contidas são propriamente inaceitáveis porque contrariam fatos bem estabelecidos e -, sobretudo -, desestimulam novas pesquisas e os novos pesquisadores (cf. 2° e 4° do
post anterior). Se depois de 200 anos de estudos por gerações de especialistas, tudo ainda está “nebuloso”, faltam carradas de cifras e, ainda por cima, Rui Barbosa botou fogo nos documentos, por que um jovem pesquisador iria querer trabalhar sobre o assunto?
Aliás, por que a BBC Brasil não corrigiu logo os erros flagrantes da reportagem difundida “com um bocado de alarde”?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Como virar ministro do STF andando nos saguões dos aeroportos

A matéria abaixo saiu no sítio do Estadão de domingo, dia 3. Trata-se de um trecho da resenha do jornalista Gabriel Manzano Filho sobre o livro Em Calendário do Poder, em que Frei Betto conta sua experiência como conselheiro de Lula no Planalto.
"Procura-se um negro para o STF"
"Numa breve anotação, em 6 de março de 2003, Frei Betto informa os critérios com que o governo monta o Supremo Tribunal Federal. “Marcio Thomaz Bastos indagou se conheço um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretende nomear um afrodescendente para a Suprema Corte do País. Lembrei-me de Joaquim Barbosa. O ministro ficou de convocá-lo para uma entrevista.
Joaquim Barbosa foi empossado no STF dia 8 de maio seguinte. Frei Betto o conhecera casualmente em um aeroporto, meses antes."
xxx
Ora, o ministro Joaquim Barbosa é um jurista respeitável e respeitado. Sabatinado no Senado, como manda a Constituição, seu nome foi aprovado por unanimidade pelos senadores. Seu currículo é sólido. Seguiu uma carreira destacada no Ministério Público Federal e obteve o devido reconhecimento dentro e fora do Brasil: foi professor convidado nas Faculdades de Direito da Universidade de Columbia (New York) e da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Sua análise meditada sobre o sistema de cotas, mereceria ser melhor conhecida. Talvez ajudasse a dissipar a histeria que envolve o assunto atualmente.
Sua formação internacional e sua especialização doutoral se destacam nesta e nas
gerações passadas de ministros do Supremo Tribunal Federal. De fato, ele fez mestrado e doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Paris II, que se situa entre as 5 primeiras da Europa. Sua tese tem por objeto, justamente, as relações do STF com o sistema político brasileiro. Coisa bastante rara na França (sei do que estou falando: minha tese nunca foi publicada aqui), seu doutorado foi publicado por uma editora francesa especializada em obras jurídicas. No prefácio deste livro -, que tenho aqui em mãos no meu escritório na Faculdade -, La Cour suprême dans le système politique brésilien, seu diretor de tese, o professor Claude Goyard, escreve: “É uma sorte para as Faculdades de Direito Francesas e para a Universidade de Paris Panthéon-Assas (Paris II) ter suscitado [este] pesquisador de talento...”
Não li o livro de Frei Betto. Ele tem motivos para criticar os governos Lula e até concordo com parte destes motivos. Mas, do jeito que está redigida, a notícia passa a idéia que Joaquim Barbosa é apenas um negro engravatado, de pasta de advogado na mão, que um dia teve a sorte de cruzar Frei Betto no saguão de um aeroporto, assim, casualmente.
Casualmente, o texto achincalha um homem de bem e um jurista importante que honra o STF e o Brasil.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Um bom trabalho mal feito


Saiu em vários sites e jornais, com fotos de negros brasileiros famosos, um estudo organizado pela BBC e o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, sobre a ascendência africana de nosso povo. Comento afirmações equivocadas que podem comprometer as conclusões do estudo.
1° - “Apesar de ter sido feito em um grupo negros em São Paulo, o estudo tem uma representatividade nacional porque, com as migrações internas, durante e após a escravidão, a cidade se tornou, de certa forma, um caldeirão genético do Brasil”
- Não é bem assim. O Rio de Janeiro foi, a partir de 1700, com o início da exploração do ouro, o verdadeiro pólo de atração do tráfico negreiro no Atlântico. O Rio é, aliás, o maior porto negreiro das Américas. No Rio viviam, em 1849, 266.000 habitantes dos quais 110.000 (41%) eram escravos, formando a maior concentração urbana de cativos das Américas. Depois, a cidade Rio foi também o grande centro do tráfico interno e de migrantes livres do Brasil inteiro. Ou bem se fazia uma amostragem pelo país, ou bem se escolhia o Rio, e não São Paulo. De Bissau e da Senegâmbia em geral, vieram dezenas de milhares de escravos para o Brasil, a maior parte foi dirigida para o Maranhão e o Pará. A notícia sobre o estudo nem dá por isso.
2°- “Segundo o estudo, a origem dos escravos levados para o Brasil sempre foi um assunto nebuloso, sem documentação completa. Para evitar pedidos de indenização, documentos históricos sobre a escravidão foram queimados após a abolição, em 1888”.
- A afirmação revalida o argumento dos preguiçosos: não dá para estudar direito a escravidão porque Rui Barbosa destruiu os documentos. Já se demonstrou que os documentos queimados foram poucos. Além do mais, a administração pública brasileira não tem a nada a ver com o KGB ou a Gestapo: se os funcionários recebessem ordem para destruir tudo pegariam o serviço devagar e sobraria muita coisa. Sobretudo, os documentos sobre a escravidão estão entranhados em todos os papéis escritos ou impressos do Brasil. É tão difícil destruí-los quanto eliminar os papéis em que haja menção aos paulistas ou aos baianos. Mesmo que se queimasse a papelada toda e até bula de remédio, ainda ficariam os registros dos consulados estrangeiros e, em particular, do consulado britânico. A Inglaterra fêz três CPIs sobre o tráfico negreiro nos anos 1840: os autos estão entulhados de dados sobre o Brasil.
3° “Acredita-se que entre 3,6 milhões e 4 milhões de escravos tenham sido trazidos para o Brasil entre 1550 a 1870”.
- Há quase 20 anos, desde o livro de David Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade, Oxford University Press, Oxford, U.K. 1989, sabe-se que os africanos desembarcados no Brasil, até 1856 e não 1870, sobem a mais de 4 milhões de indivíduos.
4° “Não há dados, por exemplo, sobre o enorme número de africanos transportados ilegalmente após 1830, quando o Brasil assinou um tratado com a Inglaterra para acabar com o comércio de escravos. A falta dessas informações dificulta que se saiba, exatamente, de onde vieram africanos trazidos para o Brasil.”
- Essa é demais! Os ingleses tinham alcagüetes entre os negreiros e marinha de guerra no Atlântico: sabiam das coisas. Desde 1850 publicaram estatísticas – copiadas pelo governo brasileiro e conhecidas há décadas pelos historiadores – sobre o período. Eltis, citado acima, completou os dados em 1989. Mas
Maurício Goulart em Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico (1949, 2ª ed., 1975) já tinha parcialmente resolvido o assunto em 1949. Desembarcaram 710.000 africanos entre 1831 e 1856, a cifra tá na boca do povo, e sabe-se de onde eles vieram. (ler abaixo a carta de Carlos Antônio Leite Brandão, os outros comentários anexos e, acima, o post « Um bom trabalho mal comentado »)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Nós aqui e acolá

Já falei da mudança ocorrida recentemente, quando o número de emigrantes, pela primeira em vez em nossa história, sobrepujou o número de imigrantes. A questão da emigração tem sido pouco discutida. Os bancos e os "cabeças de planilha" (a expressão é de Luís Nassif) falam com água na boca dos bilhões dólares que os emigrantes mandam para o Brasil. Mas pouco se lhes dá que muitos brasileiros estejam se estrepando nas quatro partes do mundo. Ao final de muito tempo, o Itamaraty construiu um sítio decente sobre o tema. E durante algumas semanas, no começo de 2006, a novela América, da Globo, pôs a emigração em pauta. Porém, a televisão brasileira é basicamente burra. Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga plantaram os migrantes nordestinos no coração da tragédia social brasileira. Mas todos os capítulos de América só serviram para dar uma efêmera notoriedade a atores globais. O drama humano da emigração para os EUA sumiu por detrás dos cabelos de Deborah Secco.
Ao fim e ao cabo, o assunto tem sido tratado com descaso. Basta ver a total ausência de comentários nos jornais nacionais a respeito do
debate criado pela nova lei de imigração nos EUA, onde há mais de 1 milhão de emigrantes brasileiros. Em boa parte clandestinos, tais emigrantes serão atingidos pela nova legislação. Numa das raras tomadas de posição de políticos brasileiros, o governador Aécio Neves, em viagem a Boston no mês da abril, afirmou sua preocupação sobre o assunto: "O que eu posso fazer é criar condições para que a vinda para os Estados Unidos não seja a última, a única alternativa para uma parcela importante de mineiros".
Sondagem do
Herald Tribune mostra que, entre os habitantes dos países desenvolvidos, os americanos são os mais numerosos a achar que seu país ainda precisa de mais imigrantes (o dado não está no artigo do link, mais sucinto que o do jornal impresso). Esta é uma das chaves do problema nos EUA e alhures. Muitos empresários e muitas famílias americanas aproveitam-se da mão-de-obra barata estrangeira e, mais ainda, dos clandestinos.
Há brasileiros que só abrem os olhos para a situação dos emigrantes quando, em viagem de turismo, esbarram com seus compatriotas em dificuldades. Na realidade, os emigrantes despreparados pela incúria de nossos governos desmascaram a fachada lisonjeira que a classe média e alta brasileira carrega consigo quando viaja no exterior. Mesmo no Brasil o mal-entendido é evidente. Veja-se este diálogo sobre a emigração que catei num chat brasileiro (os nomes são fictícios):
Pafúncio: "Quem limpa chão de supermercado no Brasil, não me consta que morra de fome.Tem muito brasileiro preguiçoso aí na América vivendo de golpes e sujando o nome do país no exterior.Ilegal ou não.VC sabe disso".
Pancrácio: "Estou aqui legalmente, nunca precisei limpar prato no BR mas se tivesse limpado, qual o problema? Vou ao BR a cada dois meses e sei muito bem a situação que tudo se encontra por aí. Odeio morar nos EUA mas aqui estou conseguindo relaxar no semáforo e não ficar louco, olhando de um lado pro outro".

P. S. – Hoje, sábado, saiu no Globo Online uma notícia da agência espanhola EFE sobre a discussão das leis de imigração nos EUA. Como o redator da matéria foi um jornalista espanhol, não há, obviamente, nenhuma referência às dezenas de milhares de imigrantes clandestinos brasileiros nos EUA.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Poder ter poder

Foto da Reuters no Libération
Estas fotos de Sarkozy entrando no palais de l’Elysée de bermudas, vindo do seu jogging, um dia depois de sua posse na presidência, sugerem inevitávelmente ao leitor brasileiro a lembrança delle. Nos dias seguintes, o espalhafato em torno de Sarkozy, de sua família e de suas corridinhas em outros paradeiros presidencias pareceu confirmar o paralelo com elle. Decerto, Sarkozy entretem comportamentos de maquinação midiática que -, de John Kennedy (os vestidos chics de sua mulher, os passeios de veleiros em Cape Cod, a foto com o filho pequeno debaixo da escrivaninha) a Collor -, incorporaram-se ao exercício do poder contemporâneo. Aliás, nem tão contemporâneo assim. Quem conhece, mesmo sem ter lido, o assunto das Mémoires de Saint-Simon sobre a corte de Luís XIV (8 grossos volumes em papel bíblia da coleção La Pléiade, da Gallimard!), ou viu o magnífico documentário de Rosselini sobre a tomada do poder por Luís XIV, sabe que o espetáculo do poder é consubstancial ao exercício do poder.
Não obstante, o projeto de Sarkozy vai bem além das aparências modernosas e se inscreve no longo prazo.
De imediato, assinalo algumas tacadas dele que viraram o jogo pesadamente em seu favor e destabilizam o PS e a esquerda às vésperas da campanha para as Legislativas. A evocação da Resistência, e de um resistente comunista de 17 anos, Guy Môquet, fuzilado pelos nazistas em 1941; a viagem rápida a Berlim para encontrar Angela Merckel e tentar relançar a União Européia; as seis mulheres dirigindo ministérios importantes e outra ainda num ministério secundário; a principal, Rachida Dati, juíza e nova ministra da Justiça, é filha de um pedreiro marroquino e de uma argelina; a nomeação de Bernard Kouchner no ministério das Relações Exteriores e a adesão de outras personalidades socialistas ao governo. Falei um pouco disso no meu comentário semanal no UOL News e voltarei ao assunto.

domingo, 20 de maio de 2007

Yes, we have sugarcane!!! 5

Livro de Receitas (1495-1505), do Sultão de Mandu (norte da India), aconselhando alimentar vacas com cana para obter leite açucarado, British Library
O Herald Tribune trouxe uma reportagem sobre a cana de açúcar cultivada na Índia.
No ano que vem, a Índia pode tornar-se a maior produtora mundial de açúcar. Ultrapassando o Brasil, cuja safra canavieira é parcialmente desviada para a produção de etanol.
A cultura da cana existe no sub-continente indiano desde 1000 a. C. Na virada do século XVIII, quando a Índia estava sob dominação britânica, o governo de Londres pensou que a produção indiana -, somada à produção da Jamaica (também inglesa) -, poderia jogar para escanteio o açúcar brasileiro.
Na época, a Inglaterra combatia duramente o
tráfico negreiro que sustentava a produção brasileira. Mas a concorrência indiana não vingou e o açúcar brasileiro ganhou a parada. Não obstante, a agricultura indiana deu conta de uma cultura florescente na época: o anil: tomou o mercado europeu e matou a produção de anil brasileiro. Sobrou o nome "anil", na Favela do Anil, em Jacarepaguá, região da antiga «chacará do anil», onde começou a cultura fluminense da planta no meado do século XVIII.
Agora, está aí de novo a Índia, independente e poderosa, com vantagens comparativas similares ao Brasil (mão-de-obra barata, mas a terra lá é mais cara), em cima do mercado mundial açucareiro.
P.S. – Uma tese muito interessante, «
O Azul Fluminense: o anil no Rio de Janeiro Colonial -1749-1818 », 2005, de Fábio Pesavento, da Economia da Universidade Federal Fluminense, explica o assunto do anil. Aproveito para lembrar dois historiadores, cuja obra é insuficiente apreciada no Brasil, que publicaram estudos pioneiros sobre o tema. O primeiro é Dauril Alden (acho um disparate que seu grande livro Royal government in colonial Brazil ... 1769-1779, publicado em 1968, quase 40 anos minha gente! ainda não tenha sido traduzido). Seu artigo é: "The growth and decline of indigo production in colonial Brazil: study in comparative economic history", Journal of Economic History, vol.25, n.1, 1965, p.35-65. O segundo artigo é de Luis Ferrand de Almeida, "Aclimatação de plantas do Oriente no Brasil durante séculos XVII e XVIII", Revista Portuguesa de História, tomo 15, 1976, p.339-481.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Olhar devagar: arma de dois gumes

Foto:Vivi Zanatta, da Agência Estado, publicada no portal G1
O que deu na telha de Serra para ele tomar uma pose destas? O governador de São Paulo é um homem pacífico, revoltado com a violência criminosa que atormenta seu estado e o país. Para que então pegar neste trabuco que, mais cedo ou mais tarde, vai matar alguém num morro, numa favela, em pleno sol do meio-dia, no começo de uma madrugada ? Nenhum de seus conselheiros pressentiu que uma pessoa de terno cinza e gravata (ainda mais com as olheiras que ele tem), com uma arma destas na mão, fica parecendo um gangster de opereta, de filme dos anos 50? Não deu outra. Na foto, Serra leva jeito de gangster portenho.
Homem público de bom senso não aparece -, ainda mais apontando para os fotógrafos -, com uma arma mão. Nem com cartucheira de atirar em pratos. Numa foto célebre de 1940, Churchill de charutão na boca, em visita à Home Guard britânica, empunhou uma metralhadora. Mas era um recado para os nazistas que planejavam invadir a Inglaterra. Todo mundo entendeu assim e Churchill virou estátua.
O ar bonachão de Serra, em vez de amortecer o efeito agressivo da foto, toma um tom zombeteiro que pode ser – e será - mal interpretado.
Anos atrás, quando se falava pela milésima vez que a execução de criminosos era a única solução para a violência no Brasil, Serra, então deputado federal, escreveu na Folha um artigo contundente contra a pena de morte. Mandei um telegrama (já havia fax mas ainda não havia emails) para cumprimentá-lo. Acho que foi a única vez na vida que fiz isso de mandar mensagens para cumprimentar um político.
Talvez, numa hora dessas, em tempos de violência brutal, Serra devesse escrever de novo -, agora com todo o seu peso de governador de São Paulo e de presidenciável -, contra a pena de morte. Seria bom para o país. E ninguém iria ter idéia de jerico vendo esta foto.

domingo, 13 de maio de 2007

O debate sobre o aborto

Estou em Salamanca dando um curso na Universidade, no quadro do Centro de Estudios Brasileños. Leio todos os dias El Pais que traz uma boa cobertura do debate sobre o aborto e a visita do papa no Brasil.
Na escada da belíssima biblioteca da Universidade existem frisos do início do século XVI, representando cenas que conduzem, pelo estudo e a sabedoria, até o nível da contemplação. Malgrado o avanço da época, os homens do Renascimento não concebiam as mulheres como iguais, como seres humanos tão fortes e inteligentes como eles.

É o que ilustra o friso acima. No lado esquerdo, a mulher está sobre o homem e indica a aranha, símbolo da esterilidade e de coisas ruins. Do lado direito, o homem senta-se em cima da mulher e aponta para a abelha, que evoca a fertilidade e as coisas boas. Ou seja, numa sociedade bem composta quem manda é o homem.
Este é ainda fundamento da doutrina que criminaliza o aborto, provocando todos os anos centenas de mortes de mulheres que procuram interromper clandestinamente a gravidez indesejada, e levando outras 220.000 às urgências dos hospitais brasileiros para tratar lesões causadas por intervenções feitas em condições precárias. As estatísticas oficiais mostram que 1/3 das mortes maternas são causadas pelo aborto.
Lula foi o primeiro presidente a ressaltar -, durante a visita do papa -, o postulado republicano que estabelece a laicidade do Estado brasileiro. Foi um feito muito importante que teve pouca repercussão no Brasil. Perdeu-se uma boa oportunidade de discutir a questão da laicidade (será que um dia teremos de sair nas ruas para defender o fundamento laico do Estado, como fazem hoje corajosamente os turcos ?). Contudo, Lula
recuou no debate sobre o aborto, esvaziando o plebiscito sobre o assunto no Congresso, como informa Kennedy Alencar no Folhaonline.
Só falta agora começar a fritura do ministro Temporão, que teve a coragem e o civismo de colocar esta questão dramática em debate.

O recuo do governo mostra que a sociedade brasileira permanece refém do conservantismo católico impulsionado por Bento XVI e do fundamentalismo evangélico.

domingo, 6 de maio de 2007

Vai com maio, ou sem maio?

Roy Lichtenstein, Drowning Girl, 1963, (reprod. modificada) © Museum of Modern Art, N.Y.
Em algumas horas, Sarkozy será o novo presidente da França. Talvez por dez anos, mas este é outro papo. Entre as coisas que tem sido ditas e escritas sobre a eleição, há o tema de maio de 1968, trazido à tona pelos ataques de Sarkozy à « herança » meia-oito. O Herald Tribune e jornais pelo mundo afora falaram nisso. No Le Monde, Dominique Dhombres ridicularizou a investida de Sarkozy. Não obstante, na semana que vem haverá gente proclamando, mais uma vez, a extinção definitiva de maio 68 e o sepultamento de seus restos nos quintos do inferno.
No que me cabe, quero distância do narcisismo geracional que se identifica à imagem botoxizada de um maio 1968 oba-oba e priápico. A direita também propaga esta imagem para reforçar a idéia de que tudo não passou de uma geral esculhambação. Como escrevi na
Folha há algum tempo, «De Bush ao diretor do Banco Mundial, Paul Wolfowitz (estudantes na época), a Sarkozy (atual ministro do Interior da França, então também estudante) e até ao papa Bento 16 (professor em Tubingen), há toda uma camada de gente influente na Europa e nos EUA que guardou um rancor tenaz contra o "meia-oitismo".
Longe das caricaturas, maio é também, e sobretudo, a maior greve operária ocorrida num país desenvolvido no pós-guerra, é um movimento social e cultural que mudou o país. Estas e outras coisas estão ditas numa entrevista em que participei ao lado de gente ilustre (FHC, Paulo Arantes, Giannotti, Roberto Schwarz), em 1998, no trigésimo aniversário de maio. A entrevista foi publicada na Folha e ainda está no sítio do
Jornal do Commércio, de Recife (vim para a França em 1966, e não em 1996, como está escrito na entrevista).
Agora, duvido que Sarkozy ouse, sequer, abolir a semana de 35 horas de trabalho
, instaurada em 1998-2000 pelo governo socialista de Jospin, e apontada por muita gente boa como a marca mais patente do atraso da herança meia-oito.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Salvador e Jamestown: como somos velhos!

João Teixeira Albernaz, Bahia, 1631

Noticia-se a viagem da rainha Elizabeth aos EUA na comemoração do 4° centenário da fundação de Jamestown (Virgínia), primeiro estabelecimento permanente dos ingleses nas Américas. O Herald Tribune retoma um interessante editorial do Boston Globe sobre o assunto.
Doze anos depois dos colonos ingleses, desembarcou em
Jamestown, em 1619, o primeiro grupo de escravos africanos dos futuros EUA. Eram angolanos, inicialmente transportados no navio negreiro português São João Baptista, que se dirigia para o porto de Vera Cruz, no México. No alto mar, o negreiro foi capturado por corsários ingleses. Daí os angolanos foram levados para a Virgínia, onde ajudaram a deslanchar a cultura do tabaco e o crescimento da colônia inglesa.
Nesta época, os portugueses tinham comercializado a quase-totalidade dos cerca de 150 mil africanos deportados para as Américas. No Brasil, haviam desembarcado, no mínimo, 40% deste total, ou seja, 60 mil africanos. Acrescente-se uns 30 mil colonos portugueses e se verá como o Brasil -, sob o impacto de uma colonização luso-africana relativamente densa -, já era velho no nascimento da Virgínia e dos futuros EUA.

Aproveito para lembrar algo fundamental: antes da declaração de Independência dos EUA (1776) ninguém sabia que as colônias européias nas Américas podiam, e iriam, tornar-se nações independentes. Portanto, é disparatado transpor a idéia do Brasil de José Bonifácio ou dos EUA de Benjamin Franklin para Jamestown ou para a Bahia dos séculos XVI e XVII. Como se os colonos destes cantos já soubessem o seu vir a ser, já tivessem a consciência de que seriam independentes, já vivessem numa proto-nação. Muitos, mas muitos mesmo, professores de história dos EUA, do Brasil e do restante dos países americanos (referindo-se aos colonos de seus países) propagam este besteirol nacionalisteiro fabricado no século XIX.

sábado, 28 de abril de 2007

As saias de Ségolène e o pai de Sarkozy

David, Les Sabines, 1799 (detalhe) © Musée du Louvre/A. Dequier - M. Bard

Assisti ao debate de Ségolène com Bayrou. Ela não se saiu mal. No cara-a-cara ela está bem mais à vontade do que nos discursos. Bayrou foi educado.
Mas os comentários que ouvi pouco depois na mercearia da esquina não deixam dúvida: Ségolène é vítima da baixaria machista, a qual, como todo mundo sabe, não é praticada só pelos machos. Veio a história das fotos dela de bikini (e daí ?, será que ela tinha que usar macacão para ir à praia que ela sempre foi com os quatro filhos ?). Depois falou-se de suas saias. Supostamente, ela deveria usar terninhos masculizantes como os de Hillary Clinton, Condoleezza Rice, Angela Merckel, Michèle Bachelet ou a ministra da Defesa francesa, Michèle Alliot-Marie. Saia, só para mulheres nascidas em 1925, como Margareth Thatcher. Nascida em 1953, Ségolène vai em frente de saia. De vez em quando vem ainda a aporrinhação de que ela não é casada com o pai de seus quatro filhos, François Hollande. Sobretudo, fala-se e escreve-se que ela é despreparada. Passa-se batido sobre o fato de que ela foi três vezes ministra, formou-se nas faculdades da elite francesa,
etc.
Elaine Sciolino, a excelente jornalista do Herald e correspondente do NYT em Paris,
fala disso, e também das andanças de Cecile, a mulher de Sarkozy, contando coisas que devem deixar os leitores da gringolandia meio chocados. A correspondente do Le Monde nos States, Corine Lesnes, tira um pouco sarro da história toda no seu blog.
Entretanto, a presença de uma mulher no segundo turno não é o único dado novo na eleição. Listei alguns noutro
post, mas esquecí algo importante, e insuficientemente mencionado até agora: Sarkozy é o primeiro francês filho de imigrantes que tem a chance de se tornar presidente.
Seu pai vinha da pequena nobreza húngara e fugia da invasão da Hungria pela URSS, em 1944. Muito provavelmente, não terá encontrado as mesmas dificuldades que um imigrante analfabeto africano chegado na França em 1984, fugindo de uma invasão de ganhafotos ou da miséria na sua terra natal. Contudo, num país acusado, a torto e a direito, de racista, não é pouca coisa.
Se Sarkozy for eleito, será algo inédito numa grande democracia ocidental. Nos EUA há Schwarzeneggers governadores, mas não houve, no passado recente, Sarkozys presidentes. Michael Dukakis, filho de imigrante grego, foi batido por Bush pai nas presidenciais de 1988. No Brasil, salvo erro, o filho de imigrante que subiu mais alto pelo voto popular foi Paulo Maluf.
P.S. - Tem se falado que outros países já elegeram mulheres para a chefia de seus governos, salvo os EUA e a França, pátrias das duas grandes revoluções democráticas e dos direitos do homem. A historiadora Mônica Leite Lessa, num artigo em O Globo, interroga-se sobre este ponto. Contudo, é preciso tomar em consideração que as primeiro-ministras são, de fato, eleitas deputadas que posteriormente chefiam maiorias parlamentares. Enquanto Ségolène Royal e Hillary Clinton, eventualmente, serão eleitas diretamente presidentes. A única exceção nos nomes citados por Mônica é a social democrata Tarja Halonen, eleita em 2000 e reeleita em 2006 à presidência da Finlândia pelo voto direto. Mas na Finlândia, os poderes constitucionais do presidente são muito mais reduzidos do que na França ou nos EUA.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

O colapso de um intelectual orgânico

Delacroix, La Liberté guidant le peuple (detalhe),1830, Museu do Louvre© R.M.N./H. Lewandowski

Roberto Mangabeira Unger é um grande intelectual. Sua carreira em Harvard é excepcional. Ali, ele terá sido, salvo engano, um dos catedráticos mais jovens da melhor universidade do mundo. Sua obra portentosa, nem está toda traduzida em português, nem –, o que é mais lamentável –, foi avaliada na sua devida importância pelos universitários brasileiros.
Marcado pela militantismo republicano de seu ilustre avô contra a ditadura Vargas e, provavelmente, pelo militantismo armado de sua irmã contra a ditadura mais recente, Mangabeira envolveu-se no movimento pela redemocratisação do Brasil. Nada mais legítimo. Na época, alguns gaiatos, ironizando seu sotaque, diziam: "Mangabeira é o único brazilianist brasileiro!" Faço parte dos que torciam para que sua influência pesasse no país.
De Ulysses Guimarães, a José de Alencar, passando por Brizola e Ciro Gomes, ele habilitou-se como eminência parda de grandes e menos grandes políticos, passando por vários partidos. Apesar de tudo (ele poderia escrever um livro interessante sobre as conversas que condicionaram suas piruetas políticas partidárias), esta viração nunca chegou a comprometer seu estatuto de «intelectual orgânico» preocupado com a democracia e a modernização do Estado.
Agora, aproximou-se de Lula e ganhou um cargo ministerial.
Também legitimamente, os jornais começaram a citar seus ataques a Lula e, em particular, um artigo em que ele pedia o impedimento do presidente. Não me lembrava do texto e só registrei a frase repetida no noticiário: “o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional ». Hoje, o portal da
Agência Estado informa que Mangabeira retirou do seu sítio de Harvard, onde coloca todos os seus escritos em linha, o tal artigo, publicado na Folha de São Paulo em 15/11/2005 e agora reproduzido no dito portal.
A leitura do texto é surpreendente. Não é um destes artigos que a gente às vezes escreve às pressas, com uma ou outra frase mais destemperada. Trata-se de uma tomada de posição meditada, apurada, calcada no célebre manifesto de Zola sobre o « affaire Dreyfus », e sustentando de cima a baixo a tese do impedimento. Mais ainda, o artigo apropria-se do argumentário udenista e golpista com laivos de preconceito de classe : «Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas…Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou».
O fato de Mangabeira aceitar agora um cargo de ministro no atual governo é melancólico. Mas a retirada de seu texto de seu sítio de Harvard, é bem mais grave.
Roberto Mangabeira Unger continuará sendo um grande intelectual. Mas mostrou que é um pequeno homem.

domingo, 22 de abril de 2007

Pequim, Havana e Yahoo

A foto foi publicada no jornal cubano Granma e reproduzida no portal de O Globo. Fidel recebe uma delegação oficial chinesa dirigida por Wu Guanzheng, manda-chuva do PC da China.
A roupa vermelha, a barba longa e esbranquiçada, o rosto espanholado, a ponta capitelada de sua cadeira, o fundo branco, dão a Fidel a aparência de um velho cardeal da Cúria romana que lê orientações para os emissários de uma diocese asiática. Mas o assunto da conversa deles certamente não foi religião.
Talvez, Fidel tenha perguntado a Wu: como vocês fazem para se darem tão bem com os EUA? Sai Nixon, vem Ford, entra Carter, chega Reagan, surge Bush pai, ganha Clinton, sobe Bush filho e vocês continuam numa boa? Fazendo muitos bons negócios e dando tapinhas nas costas. ¡Caramba!, ¡Caracoles! Ustedes não exercem uma ditadura do proletariado tão leninista como a minha? Não são tão comunistas quanto eu? Por que só eu amargo 45 anos de embargo comercial e a hostilidade pertinaz de los gringos?
E Wu respondeu: Por causa da economia, estúpido! Porque o nosso mercado é imensamente maior que o seu! Porque, como disse um fabricante de cosméticos americano, temos 3 bilhões de sovacos esperando por desodorante! Porque nós compramos bônus do Tesouro americano pra xuxú! Porque o que conta mesmo é o número de consumidores chineses e não o número dos prisioneiros políticos chineses!
Segundo informa o Granma, Wu é Secretario de la Comisión Central de Control Disciplinario del Partido Comunista Chino
. Assim, a conversa pode ter abordado também a dificuldade de exercer o Control Disciplinario nestes tempos de Internet invasiva e blogosfera febricitante.
Aliás, Wu contou a Fidel que está incomodado. O processo que Wang Xiaoning abriu num tribunal de San Francisco pode dar rolo na Comisión Central de Control Disciplinario e gerar chiadeira contra a China nos EUA. Curioso, Fidel perguntou: mas o que aprontou este tal de Wang, Wu? Vê aí no Google News, disse Wu. Fidel gugou sem querer nas “news” brasileiras (vira e mexe, o Internet cubano dá estes paus) e só achou uma notícia merreca na parte de informática do Folhaonline
e chamadinhas noutras seções de informática. Gugou então em inglês e pescou o artigo do Herald Tribune onde está tudo explicado.
Por intermédio de sua mulher, Yu Ling, residente na Califórnia, Wang está processando Yahoo por fornecer à polícia política chinesa dados que permitiram o seu rastreamento e a sua prisão. Oposicionista que se exprimia na blogosfera, Wang pegou dez anos de cadeia. Na operação, outros dissidentes também foram presos e condenados.
Fidel leu a notícia cabreiro até chegar na declaração de Jim Cullinan, porta-voz de Yahoo. Aí deu um sorriso e disse para Wu : ¡Todo está bien!
De fato, conforme está escrito no Herald, Cullinan declarou:«As companhias fazendo negócio na China são forçadas a seguir as leis chinesas … Yahoo não sabe se o pedido de informações destina-se à investigações criminais legítimas ou vai ser usado para perseguir dissidentes políticos. »
A declaração segue uma lógica irrepreensível. E lança o argumento que servirá de base ao fascismo cibernético.

sábado, 21 de abril de 2007

Presidenciais francesas: o fim de uma época.

Alguns pontos de um artigo bem mais longo que escrevi para o caderno Aliás, publicado no « O Estado de São de Paulo » de domingo, dia 22 de abril.
- Esta é a oitava eleição presidencial direta francesa (elas ocorreram em 1965, 1969, 1974, 1981, 1988, 1995, 2002). Pela primeira vez, os três principais candidatos nasceram no pós-guerra. Pela primeira vez (salvo a exceção de 1974)
nenhum dos atuais candidatos ocupou ou ocupa o cargo de presidente ou de primeiro-ministro.
- Os dois principais candidatos, Sarkozy e Royal, tiveram que enfrentar sua própria máquina partidária antes de se afirmarem como presidenciáveis. Ambos contrariam a tradição de sua respectiva família política.
- Há uma evidente virada de geração. Três presidenciáveis beirando os cinquenta anos jogam para escanteio lideranças mais antigas e estreitamente incorporadas aos aparelhos partidários, como Villepin ou Jospin. Num país onde o atual presidente teve seu primeiro cargo ministerial há quarenta anos, não é pouca coisa.
- Como o PC virou suco – a candidata comunista obtém apenas 3% dos votos nas sondagens desta eleição – o PS fica sem ter para onde correr no segundo turno, porquanto o Partido Verde também desabou e os votos da extrema-esquerda não dão para o gasto. Ségolène, com o seu socialismo pós-nacional, tenta resolver a parada, saindo pelo centro e combinando reinvidicações tradicionais de esquerda (direitos trabalhistas, defesa do Estado de Bem Estar Social) com a temática mais conservadora ( sentimento patriótico, valores familiais e paz social).
- Sarkozy propõe soluções que também são heterodoxas para seu próprio campo. Contra a diplomacia gaullista e chiraquiana que enfrenta os EUA, ele propõe-se a estabelecer uma aliança mais alinhada com Washington. No plano nacional, ele defende uma liberalização da economia e a diminuição do peso do Estado francês.
- Há um novo embate político na França. À esquerda, apresenta-se a primeira mulher com chance de chegar à presidência, a qual afasta-se do militantismo herdado de maio de 1968 e orienta sua plataforma para o centro do espectro político. No campo conservador surge, pela primeira vez no pós-guerra, um líder verdadeiramente de direita, decidido a abandonar o gaullismo social para chegar mais perto do liberalismo econômico.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

O kistch tornou-se o autêntico

A legenda desta foto de Fábio Motta, da Agência Estado, publicada no sítio UOL, diz o seguinte: »Polícia apreende réplica de espada medieval no Rio».
Não é preciso ser especialista em história militar para saber que nenhuma espada deste tipo existiu em qualquer período moderno ou medieval. Trata-se de um clone da "espada" de He-Man, caricatura de personagem medieval de história em quadrinhos e boneco de meninos.
Só redigi este post porque a legenda da foto ilustra a pertinência de uma reflexão de Jean Baudrillard sobre a sociedade contemporânea: « o kitsch será considerado como o autêntico ! »

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Sentidos da Europa

Tiziano, O rapto de Europa, 1559-1562 © Isabella Stewart Gardner Museum, Boston

Ontem, falei da necessidade de tomar em conta o contexto da União Européia para entender o sentido das presidenciais francesas. Hoje, o editorial do Le Monde mostra a estreita imbricação política entre os países da UE e, muito particularmente, entre a França e a Alemanha.
Constatando que o ministro da Fazenda da Alemanha, o social-democrata Peer Steinbrück, não foi à reunião do G-7 em Washington, mandando apenas um auxiliar, o principal jornal francês não trepida em pedir a demissão do ministro alemão.
A ausência do ministro da Fazenda em Washington -, decidida em Berlim pelo governo alemão e a chanceler Angela Merkel -, não tem, em princípio, nada a ver com o Le Monde, nem com a França, a Oropa ou a Bahia. Mas, o Le Monde – e a maioria dos pró-europeus – acha que tem tudo a ver com a UE : deixando de participar do encontro do G-7, Steinbrück prejudica a política continental.
Creio que daqui uns anos, este editorial será apontado pelos historiadores como um dos textos marcantes da emergência da consciência européia. Sobretudo se Angela Merkel mandar Peer Steinbrück para o olho da rua amanhã de manhã.

domingo, 15 de abril de 2007

As presidenciais francesas e o Brasil

Watteau, Pierrot (detalhe), c. 1718 © Museu do Louvre/A. Dequier - M. Bard

Há um sítio francês que resume todas sondagens sobre as presidenciais. Tanto a sondagem mais recente como a tendência geral das últimas semanas. A sondagem Ipsos de hoje mostra uma melhoria importante para Ségolène que, pela primeira vez desde 1° de março, tem cinco dias seguidos de alta nas opiniões de voto. As duas outras sondagens de hoje (CSA e S